10 de maio de 2014

Into the Wild, into the minds


Recentemente, na aula de Filosofia vimos e analisámos um filme inebriante e inspirador, Into The Wild. Realizado por Sean Penn, é a interpretação cinematográfica da aventura de Christopher McCandless que, com 22 anos, sente que vive uma falsidade encenada pela sua família, sendo o seu pai bígamo e a sua mãe conivente, e ambos um pouco superficiais, contrastando com Christopher, que  dispensava o materialismo, a futilidade, a hipocrisia e o modo de vida consumista. A sua identidade não está ainda definida e é no âmbito da procura de si mesmo, do âmago da felicidade e da autenticidade pessoal, que parte para uma aventura, rumo ao Alasca. 

Ao longo de dois anos de aventura, o protagonista assume-se como naturalista radical e adota o nome de "Alex Supertramp", Alex Vagabundo. A sua posição relativamente à felicidade é clarificada quando, moribundo por inanição, e no auge da sua consciência, Christopher se liberta dos dogmas e, ao imaginar-se nos braços da família, reavalia a vida e conclui que a felicidade só é verdadeira quando partilhada.

O filme propõe reflexão e evidencia vários problemas filosóficos. As relações afetivas, a identidade, o sentido da vida, a verdade, o egoísmo, o livre-arbítrio e a felicidade são alguns deles, e são matéria exigente do espírito e do pensamento livre de dogmas.

Este é um filme muito bem construído e especial, desde a narrativa em retrospetiva, passando pela banda sonora, criada por Eddie Vedder e interligada com a ação, enriquecendo-se com as excelentes fotografias da natureza e com o ótimo trabalho do elenco  – particularmente a “encarnação” de Christopher, por Hemile Hirsch – passando pela intensidade emocional das cenas e pela contextualização de citações clássicas que contribuem em muito para a reflexão e para o enriquecimento cultural. 

Concluindo, este foi o filme mais espetacular que já vi, pois observando a descoberta de Christopher, o conhecimento de si mesmo e do mundo, procuramo-nos também a nós próprios. E conhecer o nosso interior é aprendermos a exteriorizá-lo e, assim, a viver.

Beatriz Lourenço, 11º E

7 de maio de 2014

Memórias de um sobrinho de Fernando Pessoa

O jornal Estado de S. Paulo convidou a professora Cleonice Berardelli, a maior especialista em Fernando Pessoa, no Brasil, a fazer perguntas a Luís Miguel Roza Dias, sobrinho de Pessoa. Memórias infantis  - Miguel Roza Dias tinha cinco anos quando o tio morreu - e tão distantes "valem o que valem", mas não deixam de nos iluminar acerca do poeta.


A professora Cleonice Berardinelli  - Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão
«A convite do Estado, a professora Cleonice Berardinelli formulou perguntas para Luis Miguel Roza Dias, médico e escritor, que conviveu com o tio escritor nos últimos cinco anos de vida. 

Íntima conhecedora da obra de Pessoa, Cleonice preferiu questionar Roza Dias justamente sobre esse pequeno período de convivência, buscando montar um perfil do homem em seu cotidiano: o sujeito brincalhão, que aprontava com a irmã e inventava passatempos para os sobrinhos. Leia, a seguir, o resultado da conversa.

Lembra-se de alguma atitude divertida do tio Fernando?

Poderia dar vários exemplos, pois o meu tio brincava bastante comigo e com a minha irmã. Duma eu me lembro bastante bem, pois se passou diretamente comigo. Estávamos todos em casa e haveria uma festa, possivelmente de aniversário, pois estavam mais pessoas lá em casa a festejar não sei o quê. Às duas por três, eu teria desaparecido do convívio, tendo alguém perguntado por mim. Como eu era o mais pequeno conviva, ficaram todos alarmados à minha procura, pois quando uma criança da minha idade desaparece da vista, é porque estará, quase sempre, a fazer asneira. Toda a gente procurava por todos os lados, até que foi o meu tio que me encontrou. Eu tinha me escondido de baixo da mesa da casa de jantar e tapado com a toalha da mesa que chegava quase ao chão e estava tranquilamente sentado no chão a chupar uma rolha de um garrafão de vinho tinto! O meu tio Fernando ao deparar o seu sobrinhito naquele preparo, fartou-se de rir e exclamara alto e em bom som: "Temos Homem!". Como se sabe, ele gostava da sua "pinga", embora ninguém o tivesse visto ébrio.

Sua companhia era agradável aos meninos? Ou fazia-lhes medo?

Como era o nosso "único e verdadeiro" tio a viver conosco, gostávamos dele como dos nossos pais. Era lá da casa. Ainda por cima, ria e brincava conosco, prestando-se muito sério a, por vezes, que a minha irmã, mais velha do que eu, fingisse fazer-lhe a barba, como já tinha visto o tio fazer na Barbearia do Sr. Manacés, em frente à nossa casa. Eu, por ser mais pequeno, passava a ser só ajudante de barbeiro. Quando estávamos na casa da praia, ia-nos visitar todos os fins de semana, trazendo sempre presentinhos. Ansiávamos recebê-los, e ele gozava em dá-los.

Lembra-se de ter ouvido o tio dizer algum outro poeminha? Qual ou quais?

Negativo. Ele, quando chegava, na maioria das vezes, ia para o seu quarto e, pelo que nos contava a nossa mãe, ficava longo tempo a escrever de pé sobre o tampo da cômoda que tinha no quarto. Sei que a mim dedicou dois versos, um chamava-se O Menino do Caracol, pois eu, com os meus 2 anos, usava um caracol de cabelo no alto da cabeça como era costume as mães pentearem os seus filhos. O segundo poema chamava-se Rondeau e, ao menino que ele se referia, era o "BI", que era o diminutivo que ele me dera em que o "B" era de bebê e o "I" de Lu"I"z.

Como era o som de sua voz? Valorizava ou não o que dizia? Era agradável, rica, sonora?
Confesso que não me lembro. Era a voz do tio que vivia conosco, agradável, com certeza e, que eu me lembre, nunca se zangava.

(O texto, reproduzido com supressões, pode ser lido na íntegra aqui)

28 de abril de 2014

A propósito de poesia

fotografia de Julie de Waroquier
Ser Poeta...


Ser poeta é mais que fazer rimas e usar palavras extravagantes. Ser poeta é saber sonhar e escrever o que se sente, porque o único guia de um poeta é o coração e a alma. Ser poeta é conseguir transformar algo simples num turbilhão de emoções e sentimentos, quase uma magia. Porque um poeta pensa com o coração e escreve com alma. No fundo, um poeta é um sonhador que voa nas palavras e leva quem o ouve nessa jornada.

ERMA PENSANDO

Tudo o que importa
Tudo o que importou
Silente, perdida no pensamento
Abismada, atentada, pensando

Erma, defronte do destino
À espera, ainda pensando
Sem arrimo,sem nada
Apenas com o pensamento

Passou nos ponteiros, passou na vida
Juntos ganharam alento
Ela e o pensamento
Juntos ganharam tempo
                        
SILENTE VIDA

Vida,silente vida
Tal como rosa
Duros os espinhos
Belas as pétalas que os repelem
Vida, silente vida

Silente, silente vida
Doce a rosa da vida
Como todas as outras 
Como nenhuma qualquer
Vida, silente vida

Oh vida, silente vida
Vida com espinhos
Vida sem rosa
Vida sem alento
Vida silente...
                                                   Inês Justino, 8º G

23 de abril de 2014

Três poemas para os 40 anos da Revolução de Abril


NUNCA PENSEI VIVER

Nunca pensei viver para ver isto:
a liberdade – (e as promessas de liberdade)
restauradas. Não, na verdade, eu não pensava
 no negro desespero sem esperança viva 
que isto acontecesse realmente. Aconteceu.
E agora, meu general?

Tantos morreram de opressão ou de amargura,
tantos se exilaram ou foram exilados,
tantos viveram um dia-a-dia cínico e magoado,
tantos se calaram, tantos deixaram de escrever,
tantos desaprenderam que a liberdade existe-
E agora, povo português?

Essas promessas – há que fazer depressa
que o povo as entenda, creia mais em si mesmo
do que nelas, porque elas só nele se realizam
e por ele. Há que, por todos os meios,
abrir as portas e as janelas cerradas quase cinquenta anos 

E agora, meu general?

E tu povo, em nome de quem sempre se falou,
ouvir-se-á a tua voz firme por sobre os clamores
com que saúdas as promessas de liberdade ?
Tomarás nas tuas mãos, com serenidade e coragem,
aquilo que, numa hora única, te prometem ?
E agora, povo português?

Jorge de Sena, 40 anos de servidão,1979







REVOLUÇÃO

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

como puro inícío
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

Sophia de Mello Breyner Andresen, O nome das coisas, 1977 








LIBERDADE


Viemos com o peso do passado e da semente
esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente

Vivemos tantos anos a falar pela calada
só se pode querer tudo quando não se teve nada
só se quer a vida cheia quem teve a vida parada
só se quer a vida cheia quem teve a vida parada

Só há liberdade a sério quando houver
a paz o pão
habitação
saúde educação
só há liberdade a sério quando houver
liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir

Sérgio Godinho in À queima-roupa (disco de 1974)

22 de abril de 2014

Até ao fim da Inocência

fotografia de Veronika Ko
«Erros meu, má fortuna, amor ardente»

Apesar de muito haver para falar, agora, apenas pequenos recortes de memória aparecem.

Ainda nem a um terço da minha vida vou, por isso não posso falar com a maior das sabedorias, como se tivesse passado a vida a sofrer de amores. Mas também não posso falar como se nunca tivesse tido um desgosto de amor… Tenho saudades do tempo de inocência, onde aqueles pequenos amores eram de alegria, não havia lágrimas nem confusões, stress ou problemas. Onde a única coisa que queríamos era brincar.

Agora parece que somos um íman e atraímos desgostos…
Carina Santos, 10º E

21 de abril de 2014

Sê o meu búzio, serei teu mar

fotografia de Édouard Boubat

Fiel amante
do amado de tantos;
cego e cantante
de meros encantos!

Repete um som
que não é mais que o desgastar
de quem já gastou
(o desgostar de quem já gostou)
que não é mais que o despedaçar
dos pedaços, de quem o amou.

Mesmo depois de engolido
e cuspido!
Regurgita suas palavras
que não passam de cegas escravas
Doces… agora salgadas
poluídas, intoxicadas!
Geladas.

Beatriz Lourenço, 11º E

3 de abril de 2014

Solar XXI - um edifício energeticamente sustentável

Quando se olha de longe, parece um harmonioso edifício de azulejos azuis-escuros e janelas. À medida que nos aproximamos, os azulejos ganham mil cores e refletem a luz de uma forma diferente, e desconfiamos. Assim que estamos suficientemente perto e, por cima da entrada principal, podemos ler “Solar XXI”, não existem dúvidas: os supostos azulejos deste edifício do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG) são afinal células fotovoltaicas.

Somos então recebidos no “Solar XXI” e levados até a uma sala com um aspeto diferente. O gentil arquiteto que nos recebeu explica as estratégias envolvidas na construção deste edifício de baixíssimo consumo de energia, incluindo os estranhos aspetos da tal sala. Aprendemos, nesta primeira interação, que reduzir o gasto da energia que é usada na regulação da temperatura de um edifício é essencial. A simples técnica de baixar o estore durante o verão, evitando, assim, recorrer a um ar-condicionado, é fundamental para reduzir o consumo de energia. Outro exemplo curioso, de entre muitos que nos foram apresentados, é o facto de se poder aproveitar a energia térmica que se gera junto aos painéis fotovoltaicos exteriores (os tais “azulejos” das paredes) para aquecer o interior que lhe está adjacente. No final desta conversa, ficámos a saber ainda que, uma vez que a atividade dentro do edifício decorre durante o dia, é importante existirem muitas janelas e aproveitar-se a luz diurna para iluminação do local. Assim, fora raras exceções, o gasto de energia em iluminação é quase desprezível.

Após esta conversa somos levados até outra sala e recebidos por um outro investigador do LNEG. Nesta segunda parte da visita discute-se o aproveitamento elétrico ao nível dos painéis fotovoltaicos do exterior do edifício, que vão servir para produzir energia elétrica através da radiação solar. Em primeiro lugar, foi-nos mostrado o aproveitamento do processo fotovoltaico consoante as estações do ano. Não fazia ideia de que era durante o inverno que mais energia fotovoltaica se produzia: o facto de o sol se encontrar mais próximo da Terra e, por isso, se captar uma radiação mais intensa, é determinante no rendimento do processo fotovoltaico. Mas surge a questão das nuvens: no inverno existem mais nuvens (e negras, que absorvem mais radiação), como se obtém nesse caso um maior rendimento? É que existem células fotovoltaicas cujo espetro de absorção é mais intenso para radiações que as nuvens não absorvem. Apercebemo-nos então de que existe todo um vasto trabalho de investigação cujo objetivo é a procura das condições a que se deve sujeitar uma célula para que o seu aproveitamento seja máximo.

Ao cabo destas duas conversas, aprenderam-se coisas muito interessantes do ponto de vista da poupança de energia e da sua produção renovável. Apercebemo-nos ainda de que uma maior consciência acerca da natureza dos edifícios e o aumento da utilização destas técnicas na sua construção seria uma grande vantagem para as nossas cidades, tanto do ponto de vista monetário (tendo em conta que se poupa em energia) como do ponto de vista ambiental (na medida em que a energia utilizada no edifício é de uma fonte renovável).
Em suma, acredito que esta visita ao Solar do século XXI do LNEG foi um momento importante para o nosso 12ºB, na medida em que se aprendeu sobre o funcionamento e a utilidade que os edifícios de baixo consumo de energia representam. “Em direção à energia zero”!

Pedro Constantino, 12º B

25 de março de 2014

Encontro de culturas


Biombos Namban, Japão, sec. XVI-XVII

Do encontro entre povos e culturas, muito há a ganhar; mais há, certamente a perder. - Joan D. Vinge

Quando povos diferentes são forçados a partilhar o mesmo espaço, é provável que surjam rivalidades. Assim sendo, poderemos ter, como afirma a escritora Joan D. Vinge, mais a perder do que a ganhar. Contudo, e na minha opinião, se houver respeito e uma boa organização social, os ganhos podem ser mais relevantes que as perdas.

Com efeito, quando ocorre o encontro de dois povos diferentes, é inevitável que comuniquem, que partilhem opiniões, ideias, costumes e experiências. Com o tempo, e dado que partilham o mesmo local, a probabilidade de casarem entre si não é absurda, pelo contrário. Desta forma unir-se-ão, formando um novo povo, diferente dos dois originais, um povo mais enriquecido e homogéneo. Esta será uma verdadeira vantagem, embora possa também resultar numa perda de identidade das sociedades iniciais, nas duas ou três gerações seguintes. 

Outro argumento a favor do encontro é a possibilidade de  se protegerem mutuamente de possíveis invasões de outros povos mais poderosos e agressivos. Ao partilharem as diferentes técnicas e recursos de combate, tornar-se-ão mais fortes, acabando por se complementar. Por outro lado, há quem diga que esta união nunca iria resultar, pois os povos  estariam permanentemente em guerras internas, acabando o povo menos desenvolvido por sr absorvido ou destruído. Isto seria sem dúvida um forte argumento contra a reunião e tentativa de cooperação dos povos.


Em suma, o encontro de culturas diferentes é quase sempre vantajoso, pois desse encontro resulta uma partilha que estimula o desenvolvimento e pode tornar os povos mais fortes e completos. Mas, para tal, é necessário que haja respeito mútuo.

João Lopes, 11º C

17 de março de 2014

Humanismo e universalismo d'Os Lusíadas

     
A vertente humanista e universalista d’Os Lusíadas está presente na fé depositada nas capacidades do Homem para superar os seus limites. Apesar de ser um louvor centrado nos portugueses, a epopeia de Camões enaltece o ser humano em geral e a sua capacidade de se transcender.

De facto, o Poeta propõe um modelo de herói – o Homem perfeito, aquele que reúne qualidades como a coragem física e que supera as adversidades que enfrenta. Mas o poeta realça que não são apenas força, coragem e espírito de sacrifício que fazem o herói, pois os padrões éticos, o amor ao bem comum, o conhecimento e a cultura têm um papel importantíssimo no que toca a alcançar um nível superior de humanidade.

Assim, ao longo da epopeia, nas considerações que tece, Camões ensina-nos a tornarmo-nos mais humanos. É o caso do Canto VI, em que aponta o que não devemos fazer nem ser. Não devemos, por exemplo, aproveitar-nos dos feitos de outros, pois a fama e a glória só são válidas se formos nós a conquistá-las, humildemente. Com efeito, não são os que nascem socialmente privilegiados que se consagram heróis, mas sim aqueles que lutam e que, apesar de todas as adversidades, nunca desistem.

Também no canto V o Poeta nos apresenta a sua ideologia de herói. Um herói tem de ser culto, interessar-sepelas artes e pela literatura – quebrar limites geográficos não basta, o Homem necessita de alargar também a dimensão cultural.

Em suma, a visão humanista e universal do Homem está bem presente n’ Os Lusíadas. Camões pretende que não só o rei D. Sebastião (a quem dedicou a epopeia), mas todos os homens da sua época e de épocas futuras se tornem maiores, mais humanos.
Inês Penas, 12º A

14 de março de 2014

A importância das palavras

Desde que o Homem aprendeu a comunicar, a evolução da humanidade acelerou de forma exponencial. Hoje, em tempos de crise e de guerra, a palavra é uma das armas mais fortes a serem usadas, uma vez que tanto pode conduzir à libertação, como à opressão.

A Torre de Babel, pintura de Pieter Brueghel
O mundo sempre estará em conflito, enquanto houver ambição (algo que é inerente à condição humana). No entanto, tal como o dito popular nos diz, “a conversar é que se resolvem os problemas”. Assim, em tempos de guerra e de crise, a palavra pode salvar muitas vidas e poupar muitas mortes. Se repararmos no caso da luta contra o racismo, Martin Luther King, através do seu discurso “I have a dream”, mobilizou quase todo um planeta, utilizando apenas a “força da palavra”. E, o que é facto, é que isso possibilitou a vida em liberdade de muito mais pessoas de raça negra.

Por outro lado, a palavra pode ser usada, não como arma, mas como testemunho ou ensinamento. Este uso da palavra influencia e acelera bastante a evolução da espécie humana. Deste modo, os conhecimentos de hoje podem passar para as gerações de amanhã e, quem sabe, estas façam grandes descobertas que mudem a própria essência do Homem e da vida. Sabe-se, por exemplo, que muito do conhecimento atual – os fundamentos da matemática, por exemplo – vem dos antigos, sejam egípcios, romanos ou fenícios, e que nos chegaram através de livros ou pergaminhos (e mesmo escritos em pedra) e aliás, são esta palavras que nos permitem compreender a nossa própria história.

Em suma, a palavra é um dos elementos mais importantes da nossa vida (e espécie). Permitiu-nos chegar onde estamos e ao que somos hoje, sendo também a nossa esperança para o futuro.

José Mateus, 12º B 

6 de março de 2014

Erros meus, má fortuna, amor ardente

Pintura de George Tooker
Hoje levanto-me e sigo.

Como custa acordar para uma realidade que não queremos aceitar. Um arrepio, uma brisa amarga e fria percorre o meu ser, o meu corpo material e imaterial, deixa-os ambos estáticos, despovoados, vazios de si. E lembra-me, recorda-me, faz questão de me sussurrar aqueles encantos queridos que me fizeram cair incessantemente, outrora. Ilusões, doces ilusões. Uma vida inteira. Uma fantasia errante farta de sentimentos demasiado puros, demasiado reais.

Fui forçada a dançar este vento tanta vez, sei-o de cor, conheço os seus impulsos e as suas tentações, quando me acaricia, quando me consome e me projeta contra as infindas paredes da sua alma. Encontra sempre forma de me magoar. E eu ergo os meus braços novamente, para que se una a mim, para que eu abrace uma dor e tortura necessárias. E o fado repete-se, o meu corpo enfraquecido procurando a afeição ingrata daquele que me sorve as forças, do meu amor ardente.

Erros meus. Nem a minha agonia me move. Que agradável martírio este. Nunca conheci outra forma, dou-me porque nada mais tenho para oferecer. Erro meu. Dou por mim a ensaiar os mesmos movimentos erráticos, volto a ouvir a melodia melosa que acompanha a minha cegueira e obedeço-lhe como um corpo amestrado que reage a um impulso. Forço-me a cair, mas desta vez, já não há vento que me receba. Deixo-me ficar. Estática, vazia, inconsciente da minha dor. Sinto o peso do meu corpo a ser comprimido contra o chão húmido e glaciar.

Mas não. Ele é apenas leve e frágil, suavemente pousado sobre as areias finas e translúcidas da minha inocência. Eu apenas me deixei ficar, deixei-me sempre ficar. Mas hoje, não. Hoje, levanto-me e sigo.

Carolina Couto, 10ºE 

5 de março de 2014

Arte? Nós somos de Ciências

Não é usual turmas de Ciências visitarem exposições de arte e museus, os alunos são demasiado objetivos para se submeterem a situações em que lhes é pedida alguma subjetividade. Mas nós somos diferentes e, por isso mesmo, decidimos passar uma manhã 100% cultural na Fundação Calouste Gulbenkian.
Primeiramente, detivemo-nos no museu propriamente dito, onde conhecemos as obras mais significativas da coleção Gulbenkian, fazendo a famosa “Volta ao mundo em dez obras de arte”. Pela sua diversidade, as peças permitiram-nos seguir a evolução da arte que, ao longo dos tempos, acompanhou, em grande medida, a evolução dos povos e das suas formas de pensamento. Da arte egípcia, que refletia intensamente a crença na vida depois da morte, passámos à greco-romana, representada essencialmente por moedas e medalhões gregos. Daí, fomos observar tapetes e tecidos típicos da arte islâmica e as porcelanas do Extremo Oriente, principalmente de origem chinesa e japonesa. Passámos os olhos pelos trabalhosos manuscritos da Idade Média e chegámos ao Renascimento, com os seus retratos que tanto fazem lembrar as “fotos de passe” de hoje em dia. Como não poderia deixar de ser, terminámos em grande, com as extravagâncias do Barroco e do Rococó, nas quais nada mais se respirava senão ostentação e luxo.

Após esta viagem, o Centro de Arte Moderna pareceu-nos o melhor destino a seguir, com uma exposição de título sugestivo: “Isto é arte? É arte! É arte! É arte!”. Depois da lição de história de arte, tivemos, então, a oportunidade de contactar com obras contemporâneas, em toda a sua irreverência e multiplicidade de formas, as quais deixam ao observador margem para interpretação e subjetividade, exatamente aquilo que nós, aspirantes a cientistas, tanto tememos. 


Começámos pela coleção “Preso por fios”, de Nadia Kaabi-Linke, que nos pareceu ter um caráter profundamente pedagógico, uma vez que, através de instalações e pinturas, facilmente nos sensibilizou para questões sociais associadas a aflitivos conflitos entre povos e religiões. Passámos, então, ao escultor Rui Chafes, com “O peso do paraíso”, uma coleção metálica, negra e dolorosa, que vivia em grande medida do poder dos opostos: a terra e o céu, o real e o sonho, o grande e o pequeno… Acabámos com fotografia, a exposição “Narrativa Interior”, de João Tabarra, na qual o artista expressa a sua posição crítica relativamente à atualidade, com o intuito de nos persuadir a fazer o mesmo, de modo a tornarmos o mundo num lugar menos inóspito.

Rui Chafes, O peso do paraíso
João Tabarra, A Viagem

Em suma, pode dizer-se que, apesar de diferente, a visita fez despertar o nosso lado mais interpretativo, na medida em que nos obrigou a pensar para além do visível, do óbvio. De facto, as obras de arte contemporânea podiam parecer, aparentemente, vazias de significado, no entanto, refletindo um pouco, tudo nelas se tornava claro e expressivo. Nessa reflexão tivemos de aguçar o nosso espírito crítico que, no fundo, é aquilo que temos de mais precioso.

Como Turgueniev afirmou: "A arte de um povo é a sua alma viva, o seu pensamento, a sua língua no significado mais alto da palavra; quando atinge a sua expressão plena, torna-se património de toda a humanidade, quase mais do que a ciência, justamente porque a arte é a alma falante e pensante do homem, e a alma não morre, mas sobrevive à existência física do corpo e do povo."


Alice Vicente, 12ºB 

24 de fevereiro de 2014

Canção IX

A Canção IX, de Camões, dita por Luís Miguel Cintra com uma sobriedade exemplar que torna ainda mais comovente este poema ímpar.



Canção IX

Junto de um seco, fero e estéril monte,
inútil e despido, calvo, informe,
da natureza em tudo aborrecido;
onde nem ave voa, ou fera dorme,
nem rio claro corre, ou ferve fonte,
nem verde ramo faz doce ruído;
cujo nome, do vulgo introduzido
é felix, por antífrase, infelice;
o qual a Natureza
situou junto à parte
onde um braço de mar alto reparte
Abássia, da arábica aspereza,
onde fundada já foi Berenice,
ficando a parte donde
o sol que nele ferve se lhe esconde;

nele aparece o Cabo com que a costa
africana, que vem do Austro correndo,
limite faz, Arómata chamado
(Arómata outro tempo, que, volvendo
os céus, a ruda língua mal composta,
dos próprios outro nome lhe tem dado).
Aqui, no mar, que quer apressurado
entrar pela garganta deste braço,
me trouxe um tempo e teve
minha fera ventura.
Aqui, nesta remota, áspera e dura
parte do mundo, quis que a vida breve
também de si deixasse um breve espaço,
porque ficasse a vida
pelo mundo em pedaços repartida.

Aqui me achei gastando uns tristes dias,
tristes, forçados, maus e solitários,
trabalhosos, de dor e d'ira cheios,
não tendo tão somente por contrários
a vida, o sol ardente e águas frias,
os ares grossos, férvidos e feios,
mas os meus pensamentos, que são meios
para enganar a própria natureza,
também vi contra mi
trazendo-me à memória
algüa já passada e breve glória,
que eu já no mundo vi, quando vivi,
por me dobrar dos males a aspereza,
por me mostrar que havia
no mundo muitas horas de alegria.

Aqui estiv'eu co estes pensamentos
gastando o tempo e a vida; os quais tão alto
me subiam nas asas, que cala
(e vede se seria leve o salto!)
de sonhados e vãos contentamentos
em desesperação de ver um dia.
Aqui o imaginar se convertia
num súbito chorar, e nuns suspiros
que rompiam os ares.
Aqui, a alma cativa,
chagada toda, estava em carne viva,
de dores rodeada e de pesares,
desamparada e descoberta aos tiros
da soberba Fortuna;
soberba, inexorável e importuna.

Não tinha parte donde se deitasse,
nem esperança algüa onde a cabeça
um pouco reclinasse, por descanso.
Todo lhe he dor e causa que padeça,
mas que pereça não, porque passasse
o que quis o Destino nunca manso.
Oh! que este irado mar, gritando, amanso!
Estes ventos da voz importunados,
parece que se enfreiam!
Somente o Céu severo,
as Estrelas e o Fado sempre fero,
com meu perpétuo dano se recreiam,
mostrando-se potentes e indignados
contra um corpo terreno,
bicho da terra vil e tão pequeno.

Se de tantos trabalhos só tirasse
saber inda por certo que algu'hora
lembrava a uns claros olhos que já vi;
e se esta triste voz, rompendo fora,
as orelhas angélicas tocasse
daquela em cujo riso já vivi;
a qual, tornada um pouco sobre si,
revolvendo na mente pressurosa
os tempos já passados
de meus doces errores,
de meus suaves males e furores,
por ela padecidos e buscados,
tornada (inda que tarde) piadosa,
um pouco lhe pesasse
e consigo por dura se julgasse;

isto só que soubesse, me seria
descanso para a vida que me fica;
co isto afagaria o sofrimento.
Ah! Senhora, Senhora, que tão rica
estais, que cá tão longe, de alegria,
me sustentais cum doce fingimento!
Em vos afigurando o pensamento,
foge todo o trabalho e toda a pena.
Só com vossas lembranças
me acho seguro e forte
contra o rosto feroz da fera Morte,
e logo se me ajuntam esperanças
com que a fronte, tornada mais serena,
torna os tormentos graves
em saudades brandas e suaves.

Aqui co elas fico, perguntando
aos ventos amorosos, que respiram
da parte donde estais, por vós, Senhora;
às aves que ali voam, se vos viram,
que fazíeis, que estáveis praticando,
onde, como, com quem, que dia e que hora.
Ali a vida cansada, que melhora,
toma novos espritos , com que vença
a Fortuna e Trabalho,
só por tornar a vervos ,
só por ir a servir-vos e querer-vos.
Diz-me o Tempo, que a tudo dará talho;
mas o Desejo ardente, que detença
nunca sofreu, sem tento
m'abre as chagas de novo ao sofrimento.

Assi vivo; e se alguém te perguntasse,
Canção, como não mouro,
podes-lhe responder que porque mouro.


20 de fevereiro de 2014

Erros meus, má fortuna, amor ardente

Pintura de Matisse, 1916
Torna-se difícil suportar o que sinto. Todos os erros cometidos pairam sobre mim como uma nuvem escura e pesada que me atormenta. Ainda assim a vontade permanece, tal como o desejo, o querer inalcançável, a saudade incessante e esse amor ardente que se entranha na alma sem porta de saída.

Sentir que o tenho, e que o perco a cada dia que passa. O que predomina em mim é algo absolutamente inexplicável. Sinto-me desgastada, derrubada, mas ainda assim o desejo mantém-se. Torna-se intolerável toda esta dor, angústia, ímpeto. A vontade de encontrar a felicidade dissipa-se a cada dia um pouco mais, deixando apenas a tristeza como garantida. Deixo-me a cada dia que passa ser perseguida pelos seus encantos e desencantos, ainda que sejam eles o berço deste sentimento infinito, irmão da angústia e inimigo da felicidade.

A esperança esvai-se, o medo surge e a desilusão subsiste, como aquela nuvem escura e pesada, fazendo, assim, dos erros passados a melancolia do presente. Quero poder disfrutar ao teu lado de tudo o que a vida tem, porque só assim continuarei viva. Até lá, aguardo aqui sentada, com o coração palpitante, as mãos suadas e os olhos brilhantes. Porque, para sempre, permanecerá em mim a ânsia do que fomos e não fomos.

Marina Ramos Santos, 10ºE

12 de fevereiro de 2014

Ondas do mar de Vigo

O Joel Vicente, do 12º B, escreveu esta música para um poema de Martin Codax, "Ondas do mar de Vigo". Tratava-se de um trabalho do Conservatório, onde frequenta o curso de piano. O poema foi sugerido na aula de Português. 

Explicou-nos ele que o objectivo do trabalho era compor uma música trovadoresca, pelo que se impunha "uma estrutura repetitiva e um acompanhamento musical rudimentar, tudo muito constante e fluido". 

Aqui fica então a música, delicada e bela. E a pauta, com a composição original do Joel.