Plural como o Universo
3 de novembro de 2026
Alguns cantares de amigo dos "trovadores" do 10.º D
24 de setembro de 2026
NOVO ANO LETIVO - NOVAS PUBLICAÇÕES
O Plural como o Universo abre o ano letivo 2026-2027 com um poema da Camila do 9.º C, que através dele relembra os seus avós e o afeto que estes lhe transmitiram.
Os avós deixam saudades
Quando eu
era pequenina,
ia à casa
dos meus avós.
A avó fazia
bolinhos
e o avô
cantava para nós.
As cantigas
do meu avô
faziam-me
sonhar,
com
histórias de outros tempos
que ele
gostava de cantar.
A cozinha
tinha cheirinho
a bolos
acabados de fazer,
e eu ficava
tão feliz
só de os ver
a ser.
Cantava
junto à janela,
ao cair do
entardecer,
e eu ficava
em silêncio
só para o
poder ouvir e aprender.
O meu avô
dava-me abraços
fortes como
um cobertor,
e a minha
avó fazia festas
cheias de
carinho e amor.
A sua voz era calma,
aquecia a
minha alma,
e aqueles
momentos simples
eram tudo
para mim.
Agora a casa
está mais quieta,
já não ouço
a televisão,
e às vezes
fico com saudades
que apertam
o coração.
Hoje lembro
essas cantigas
quando penso
no serão,
porque o
amor dos meus avós
vai estar
sempre no meu coração.
Camila Silva
nº2 9ºC
30 de junho de 2026
O PRIMEIRO DIA DEPOIS DO FIM
Num ano marcado por violentas tempestades e devastação, este texto da Beatriz Luís capta com sensibilidade o aturdimento do dia seguinte. E está muito bem escrito! Parabéns ao Clube de Escrita Criativa, cujos membros assinam as últimas publicações do blogue.
Ninguém é capaz de adivinhar o que acontece no primeiro dia depois do fim, e poucas pessoas são capazes de se imaginar a si próprias nesse dia.
Algo que parece tão distante, tão fictício...O meu fim foi a tempestade tenebrosa que assolou a minha pequena aldeia há dois anos. Nunca compreendi verdadeiramente o sentido de algo traumático, mas este desastre teve um impacto tão grande que só 24 meses depois me sinto suficientemente forte para o descrever.
Na manhã de 28 de janeiro, quando as pessoas se sentiram preparadas para sair das suas casas e avaliar os estragos deixados pela tempestade durante a noite, o ar parecia carregado de uma enorme incerteza. Incerteza sobre o que fazer a seguir, como reagir, para onde ir, quem chamar.
Lembro-me de pensar que conseguia ouvir o coração dos meus vizinhos a deixar de bater, como se tivesse sido apertado por uma mão invisível que dizia: "Acabou". Quando, na verdade, aquilo que eu pensava ouvir era o meu próprio coração, preso pela visão que tinha diante de mim.
Na minha aldeia, as casas são todas juntas e as suas portas abrem diretamente para a recente estrada de alcatrão. A passagem encontrava-se agora bloqueada por um fluxo de água violento e agressivo, que rapidamente inundou a pequena casa quando a porta foi aberta. Esta memória não é totalmente clara na minha cabeça.
O que é claro e vívido é o rosto de todos os habitantes da pequena povoação que, reunidos na pracinha central, não conseguiam conter as lágrimas ao observar a antiga escola destruída.
Todos os idosos, ao verem o primeiro lugar onde tiveram contacto com a tão rara oportunidade da educação, baixaram a cabeça, sentindo a profunda perda.
As sirenes desapareciam ao longe e, com elas, desapareciam também as minhas restantes memórias.
Beatriz Luís, 10º C
29 de junho de 2026
E SE...?
Do reino do hipotético - e do que antecipamos para a vida, misteriosamente fechada como um casulo a abrir - outro belo texto da Luz Pimenta.

Foto da internet, sem título ou autor atribuído
E se esta noite, quando for dormir, for a última da minha vida?
E se amanhã não acordar?
Hoje teria sido o último dia que vivi, e tantas coisas me teriam passado ao lado... Haveria uma infinidade de experiências por viver, emoções por sentir, momentos pelos quais sorrir ou chorar. Tantos países por visitar, tantas comidas por provar, tantas pessoas por conhecer, tantos livros por ler, tantas músicas por ouvir, tantas línguas por aprender, tantas águas nas quais mergulhar!
É assustador pensar que, a qualquer momento, todos estes desejos, sonhos e expectativas podem desaparecer com um último suspiro.
Por isso, espero que, quando for muito velha, possa contar aos meus netos histórias sobre todos os países que visitei, todas as comidas que provei, todas as pessoas que conheci, todos os livros que li, todas as músicas que ouvi, todas as línguas que aprendi e todas as águas em que mergulhei.
E eles ouvirão, maravilhados, enquanto imaginam cada aventura. Talvez, no final, pensem para si mesmos:
— Uau! Espero que um dia possa dizer que vivi uma vida tão cheia e tão bonita como a da avó!
Luz Pimenta, 10ºC
27 de junho de 2026
MISTÉRIO NA CIDADE
Um texto-thriller. Suspense... Ora confiram!
Protestos contra o ICE, EUA, 2025, foto de Jan Sonnenmair, World Press Photo
Os carros buzinam interminavelmente, as luzes ofuscam e as passadeiras são invadidas por passos e passos apressados. Pessoas gritam. São onze da noite em Nova Iorque, nos Estados Unidos. São onze da noite na cidade que nunca dorme.
Há algo no ar, uma antecipação de algo impossível de nomear. Será que apenas eu sinto isso? Olho em volta, mas não me parece que as pessoas que esperam comigo que o semáforo mude para verde se apercebam de tal coisa.
"Talvez mais umas horas de sono não me façam mal!"
Ao meu lado, um bebé ao colo de uma jovem começa a chorar. De repente, o cheiro a tabaco torna-se insuportável e, mesmo no meio de todo aquele barulho, consigo ouvir o senhor de 70 anos a respirar pesadamente atrás de mim.
O semáforo muda. Passos apressados, buzinas, trotinetes.
Parece que o sinto antes de acontecer. A buzina de um táxi destaca-se no meio de tantas outras. O som dos pneus a derrapar no asfalto arrepia-me. Mas nada me arrepia mais do que o cenário diante dos meus olhos.
Beatriz Luís, 10º C
26 de junho de 2026
O BULLY
O João Tiago Gonçalves envia-nos um texto produzido, como o da Luz, no Clube de Escrita Criativa da nossa escola. Quando lemos o título, achamos que será uma denúncia desse fenómeno feio, o bullying. E assim é. Mas trata-se sobretudo de um alerta acerca dos estereótipos e dos julgamentos apressados. Boa leitura!

Bruno Walpoth, escultura em madeira, 2024
Desde a escola primária, houve sempre na minha turma um rapaz com quem nunca me identifiquei. Era o maior da turma e aquele que todos temiam. Pelo contrário, eu nunca fui alto; pelo contrário, cheguei até a ter problemas de peso. Ninguém o enfrentava, com receio de que ele nos partisse os lápis de cera ou outras partes do corpo, se é que me entendem.
Os anos foram passando e, finalmente, chegou o ensino secundário e o momento de escolher a área em que queremos trabalhar durante o resto das nossas vidas. Por obra do destino, quem apareceu na minha turma? O "temido" Duarte, o bully da primária.
Como ele tinha mudado de escola durante o terceiro ciclo, estive mais de três anos sem o ver. O rapaz alto, forte e temido tinha-se transformado num "menino" ao lado dos restantes rapazes da turma. Como teve o pico de crescimento muito cedo, acabou por ficar mais baixo do que a maioria dos colegas e, hoje, quem passa por ele na rua pensa que é aluno do sétimo ano.
Certo dia, aproximou-se de mim e tentou pedir desculpa por tudo o que tinha acontecido durante os nossos primeiros anos de escola. Como sempre me considerei uma pessoa madura, aceitei rapidamente as suas desculpas e acabámos por nos tornar grandes amigos.
Hoje, trabalhamos juntos. Estamos a jantar num dos restaurantes mais conceituados de Paris enquanto escrevo esta carta para os meus futuros filhos.
A vida dá muitas voltas e, por vezes, as pessoas que menos esperamos acabam por surpreender-nos da melhor forma.
João Tiago Gonçalves, 10º C
16 de junho de 2026
PAÍS DE SONHO
Do Clube de Escrita Criativa da nossa escola, chegam agora vários contributos. Abrimos com este louvor à bela Itália, da Luz Pimenta. E que bem que nós a entendemos! 
Foto da Toscânia, Itália
Se alguma vez tivesse de sair definitivamente do meu país, escolheria a Itália para viver.
Em primeiro lugar, gostaria de permanecer na Europa. Identifico-me com a cultura ocidental e estou familiarizada com ela, pelo que não optaria por viver noutro continente. Não me adaptaria facilmente a países como o Japão ou os Estados Unidos, uma vez que apresentam diferenças culturais e sociais significativas e funcionam de forma bastante distinta da realidade europeia.
Em segundo lugar, a Itália é um país pelo qual tenho um enorme fascínio. Da única vez que a visitei, apaixonei-me pelas paisagens, pelas praias de águas azul-turquesa e pela riqueza do seu património histórico e cultural.
Desde sempre, vejo filmes e leio livros cuja ação decorre em Itália, e todos eles contribuem para aumentar a minha admiração por este país. Muitas vezes me imaginei a viver numa pequena cidade ou vila italiana, rodeada de casas coloridas e ruas estreitas de pedra. Consigo ver-me a percorrer essas ruas numa lambreta amarela, a caminho de um café acolhedor onde me reuniria com os amigos para conversar e partilhar momentos, enquanto, ao fundo, se ouviram os entusiásticos comentários de um jogo de futebol transmitido na televisão.
Não posso deixar de mencionar a gastronomia, uma das principais razões pelas quais viveria em Itália com todo o gosto. A variedade de pratos de massa, as pizzas tradicionais e os sabores característicos da cozinha italiana fazem-me considerar este país um verdadeiro paraíso gastronómico.
Além disso, sendo uma pessoa curiosa e com vontade de aprender, sentir-me-ia privilegiada por viver num país tão rico em história, arte e cultura. Aproveitaria essa oportunidade para aprofundar os meus conhecimentos em diversas áreas e conhecer melhor as tradições locais.
Por fim, destaco a língua italiana. Sempre despertou o meu interesse e é um idioma que gostaria muito de aprender. Com dedicação e esforço, acredito que a sua aprendizagem seria relativamente acessível, uma vez que, tal como o português, deriva do latim. Dominar a língua permitiria integrar-me mais facilmente na comunidade italiana e construir uma nova vida naquele país que tanto admiro.
Luz Pimenta, 10º A
12 de junho de 2026
TROCAR DE ROSA -3
A Vitória, chegada este ano da Suíça, já faz versos em português! Como este alegre e ritmado poema da Neve.
Pintura de Joan Mitchell
NEVE
A neve cai sobre o chão,
Branca como algodão.
Cobre as árvores também,
E deixa tudo muito bem.
As crianças vão brincar,
E bonecos vão criar.
A neve é boa de ver,
E faz o inverno crescer.
Os flocos caem devagar,
E começam a dançar.
No telhado e no jardim,
Tudo fica tão bonito assim.
Os pássaros vão descansar,
Pois está frio para voar.
Eu gosto de a ver cair,
E de a ver a reluzir.
Quando o sol aparecer,
A neve vai derreter.
Mas fica no coração,
Como uma doce recordação.
Vitória Silva, 8ºC
10 de junho de 2026
POEMAS QUE NUNCA TÊM FIM - 2
E continuamos o diálogo dos nossos alunos com os grandes poetas, deste feita com Cesário Verde.
Numa atividade de escrita criativa na aula de Português, foi proposto aos alunos do 8º E que reescrevessem à sua maneira, mas com coerência e criatividade, poemas de vários autores, seguindo determinadas regras dadas pela professora.
No poema De tarde, os alunos tinham de substituir as palavras em final de verso. Eis a proposta do Duarte Madeira e a sua reconstrução deste luminoso poema de Cesário.
![]() |
| Flora, pintura de Odile Redon |
De tarde, Cesário Verde
Naquele picnic de crianças,
Houve uma coisa simplesmente inesquecível,
E que, sem ter histórias nem lembranças,
Em todo o caso, dava-se por irresistível.
Foi quando tu, vinda duma ilha,
Foste colher, sem imposturas tontas,
A um ervilhal azul de ervilhas,
Um conjunto de flores, com as pontas soltas.
Pouco depois, em cima dumas colinas,
Nós acampámos, inda o Sol aparecia;
E houve talhadas de melão, tangerinas,
E pão-de-ló tu me oferecias.
Mas, todo púrpura, a sair da casa
Dos teus dois seios como rosas,
Era o supremo encanto da tua asa
O ramalhete rubro das flores cheirosas!
Duarte Madeira, 8º E
9 de junho de 2026
POEMAS QUE NUNCA TÊM FIM
Há obras cuja herança não tem fim, pois mantêm-se vivas ao longo dos séculos e nunca deixam de ser lidas, relidas, citadas, recriadas... Aqui está um belo exemplo disso. Os alunos do 8º B foram desafiados pela sua professora a escrever sonetos à semelhança de Bocage. Publicamos três desses sonetos.
Para além das ideias desenvolvidas em cada poema e do seu conteúdo lírico, parece-nos notável o exercício de versificação: o uso predominante do decassílabo, combinado com a estrutura estrófica e rimática. E todos sabemos como é difícil e exigente a escrita de sonetos. Pois saíram-se muito bem! Vamos ler:

Pedir um desejo - Festival das lanternas, na Tailândia, fotografia de Sherry Zhao
TRÊS POEMAS À MODA DE BOCAGE
De semblante triste e de olhar cansado,
E no silêncio ensurdecedor,
No rosto fica sorriso forçado,
Mas no coração permanece dor.
Vive das memórias e lembranças,
Vive dos afetos que já acabaram,
Vive também das enormes mudanças
Por parte daqueles que alguém deixaram.
Como barco perdido em alto-mar
Não se sabe se o melhor é seguir,
Ou se apenas é melhor regressar.
Eis a saudade, que fica ao partir,
Uma proposta para elaborar
Um poema que dê gosto ouvir.
Maria Francisca Ferreira, 8º B
Um dia aquela caixa decidiu abrir...
Sem saber se vinha azar ou sorrir.
No coração a culpa se fez notar
das tardes que deixou desperdiçar.
A infância nela aos poucos se calou
e a sensação de que algo se quebrou,
tal como rodas de um carro partido
que pelo canto lá ficou esquecido...
Será que tudo terá esquecido?
Aquela menina terá morrido?
Ou então terá apenas crescido?
Eis a nostalgia, que em todos cresceu.
No dia em que realmente se apercebeu,
Tais histórias que sempre escreveu.
Leonor Guerra 8ºB
Tudo parece falhar ao redor,
porém o brilho altera o frio interior.
Luz que levanta e chama por ela,
mesmo sendo este caminho sem fim
Nasce algo nela que volta a despertar!
Como uma flor que insiste em renascer
e mesmo quando tudo quer desabar...
Uma força vai ressuscitar!
Percebo que a sombra ilumina a luz.
Esta voz interior que a conduz,
mesmo que o medo queira aprofundar!
Eis a esperança, que a inspirava!
agora é parte do seu interior
e decidiu descrevê-la a vigor.
Flor Querido, 8ºB
5 de junho de 2026
TROCAR DE ROSA - 2
E prosseguimos o Trocar de Rosa com um texto do Lucca, aluno do 8º C, que partilha connosco este seu "Em partes me odeio", um poema introspetivo e inquieto, atravessado pela perplexidade de quem nem sempre encontra respostas para as suas interrogações.
Pintura de Laura Makabresku
EM PARTES ME ODEIO
Em partes me odeio, naquelas que escondo
Na máscara gasta que mostro pró mundo.
Odeio a hipocrisia que vejo lá fora,
E o medo que dita a regra do agora.
Sou jovem de rosto, mas velho na mente,
Cansado de ver tanta gente doente
De orgulho, vaidade e pura ilusão,
Enquanto o silêncio esmaga a razão.
Eu olho à volta e procuro essência,
Mas vejo teatro, farsa e aparência.
Me odeio em partes por me adaptar,
Por ter que fingir para não transbordar.
A mente acelera, tudo balança,
E vejo o mundo a perder esperança.
Eu peço fé, amor e saúde,
Mas sinto que falho em toda atitude.
No fim preciso de entender
Se a cruz foi a ponte para eu viver.
Afinal, se desse para enxergar, não seria fé,
Seria só mais algo para o mundo olhar.
E quando o peso é grande e perco o pé,
Se no fim tudo encerra, o que resta é rezar.
Lucca, 8º C



