Uma surpreendente e labiríntica meditação em torno do gesto criativo, do pensamento e do ato de escrever. Um não menos surpreendente e misterioso retrato de si.
Escreve o Miguel Correia Silva, do 9º A. Vale a pena ler!
 |
| Lanterna, pintura de George Tooker |
Posso escrever sobre tudo, tudo o que a minha
mente consegue assimilar pode ser usado para expressar aquilo que sinto. É esse
o conceito de livre-arbítrio, nada me impede, nada me ampara, mas, mesmo assim,
com todas as possibilidades, algo ainda me prende. Justamente o facto de poder
expressar tudo e qualquer coisa me acorrenta ao forte, complicado e difuso
dilema do medo, da hesitação e das possibilidades infinitas que só complicam a
minha decisão.
“O que hei de escrever?”, pergunto-me, “Qualquer
coisa”, a minha mente rapidamente responde, e é isso que me impede de começar: tudo,
o triste, pesado e ineficaz ato de pensar demais, uma “dádiva” que na verdade
age como uma maldição. Já se perderam as contas de quantas vezes deixei de
começar as minhas criações ou quantas vezes simplesmente recomecei tudo do
zero; uma pessoa como eu nunca está satisfeita! Muitos designam esta condição como
“falta de criatividade”, mas, neste caso, não, desta vez é rigorosamente o
contrário, o excesso incansável de criatividade, a minha mais forte fraqueza, a
minha desvantagem mais vantajosa, o ato inquietante de pensar demasiado.
Muito tempo se passa desde o início da jornada
desta qualidade que me assombra, muitos são os problemas que ela me causa,
ainda hoje tenho noites em claro, só pensando e olhando para o profundo, escuro
e assombroso abismo vazio de sentido e vasto de informações intermináveis que
são os meus pensamentos. Eu sei, sei de tudo um pouco, mas cada experiência que
ganho, cada livro que leio, cada pesquisa que faço só me desafiam mais e mais.
minha mente torce-se e retorce-se quando se depara com o mar de ignorância em
que o meu pequeno barco navega, cada vez mais percebo que – mesmo sabendo de
tudo um pouco – estou em constante frustração por, em verdade, não saber nada.
É curioso como a minha mente me afasta das
pessoas. Geralmente, aqueles que muito sabem estão rodeados por pessoas que
admiram muito o seu saber, mas não, comigo é diferente, a minha mente não é de
um “inteligente” que decora e se lembra ou de um “nerd” que só se preocupa com
os números, às vezes injusto, que as avaliações proporcionam. A minha mente
está à frente do tempo em que me encontro; sei que isso soa arrogante, mas digo-o
com sinceridade, a minha mente tem algo diferente, um “click” que ainda não
atingiu muitas das pessoas que conheço, sei disso pois olho para as pessoas
ditas “comuns” ou “normais” e vejo ainda muitos pensamentos irracionais,
impulsivos, inconsequentes e simplesmente sem sentido.
Agora sei que – inevitavelmente – estou condenado
a estar exilado dos meus semelhantes, tudo o que me resta é a minha mente
confusa, cheia, rápida e pensativa, que se alimenta do aprazível ato de saber,
a minha alma deleita-se no conhecimento e diverte-se em tentar expressar – mesmosem
palavras – o que se passa na minha mente perturbada.
Concluo que, para pessoas como eu, é
imprescindível a presença das artes que soltam tudo o que está preso e
escondido. Continuarei com poucas companhias que me compreendem, a escrever os
meus poemas, a pintar os meus quadros, a compor as minhas músicas e a fazer
coisas que edificam a minha alma.
Miguel Correia Silva 9.º A