O João Tiago Gonçalves envia-nos um texto produzido, como o da Luz, no Clube de Escrita Criativa da nossa escola. Quando lemos o título, achamos que será uma denúncia desse fenómeno feio, o bullying. E assim é. Mas trata-se sobretudo de um alerta acerca dos estereótipos e dos julgamentos apressados. Boa leitura!

Bruno Walpoth, escultura em madeira, 2024
Desde a escola primária, houve sempre na minha turma um rapaz com quem nunca me identifiquei. Era o maior da turma e aquele que todos temiam. Pelo contrário, eu nunca fui alto; pelo contrário, cheguei até a ter problemas de peso. Ninguém o enfrentava, com receio de que ele nos partisse os lápis de cera ou outras partes do corpo, se é que me entendem.
Os anos foram passando e, finalmente, chegou o ensino secundário e o momento de escolher a área em que queremos trabalhar durante o resto das nossas vidas. Por obra do destino, quem apareceu na minha turma? O "temido" Duarte, o bully da primária.
Como ele tinha mudado de escola durante o terceiro ciclo, estive mais de três anos sem o ver. O rapaz alto, forte e temido tinha-se transformado num "menino" ao lado dos restantes rapazes da turma. Como teve o pico de crescimento muito cedo, acabou por ficar mais baixo do que a maioria dos colegas e, hoje, quem passa por ele na rua pensa que é aluno do sétimo ano.
Certo dia, aproximou-se de mim e tentou pedir desculpa por tudo o que tinha acontecido durante os nossos primeiros anos de escola. Como sempre me considerei uma pessoa madura, aceitei rapidamente as suas desculpas e acabámos por nos tornar grandes amigos.
Hoje, trabalhamos juntos. Estamos a jantar num dos restaurantes mais conceituados de Paris enquanto escrevo esta carta para os meus futuros filhos.
A vida dá muitas voltas e, por vezes, as pessoas que menos esperamos acabam por surpreender-nos da melhor forma.
João Tiago Gonçalves, 10º C














