Encerrar ciclos e aguardar, com esperança e receio, a abertura das etapas seguintes - é assim, crescer. Aliás, é assim a vida. A Beatriz, à beira do Secundário, faz um balanço dos anos que ficam para trás e desfila as boas memórias que deseja guardar. Um texto bonito e bem-humorado. Ora vejam.
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Fotografia de Carlos de Sousa Almeida |
Pediram-me para escrever um texto livre e, nesta
altura, só me veio uma coisa à cabeça: o fim do nono ano. Sou sincera, este
tema assusta-me, porque não é simplesmente um último dia de aulas, três meses
de férias e um regresso às aulas. O fim deste ano tem um peso muito maior,
desde os exames, à pressão familiar e social que alguns sofrem para fazer a
escolha certa, e ainda, o que para mim é o pior, a separação das turmas. Convivo
com os meus colegas, alguns, há cinco anos, outros há nove e ainda alguns há
quase quinze anos. Então, entrar numa sala com apenas quatro ou cinco rostos
conhecidos vai ser difícil…
Até agora, numa sala com vinte alunos, tínhamos
de tudo, polícias, professores, advogados, arquitetos, nutricionistas,
biólogos, tudo! Éramos uma mistura incrível, nem todos gostamos das mesmas
coisas, mas isso ensinou-nos a apoiarmo-nos, apesar de tudo. Ao longo do tempo transformámo-nos em mais do que apenas uma turma difícil, fomos também criando laços,
estabelecendo relações e tornámo-nos quase uma família. Foram cinco anos a ir todos os dias para a escola, ter com os amigos, que mudaram tanto ao longo do
tempo, que nos rendem infinitos ataques de riso. O mais engraçado é olhar à
volta e pensar: Uau! O poder de uma simples lista de vinte nomes escolhidos
aleatoriamente é gigante.
Agora que todos temos maturidade suficiente para
nos aceitarmos, agora que estamos todos ligados, agora... agora vamos voltar ao
início, voltar ao primeiro dia de aulas, com um fogo extra na barriga, com medo
do que nos espera e de quem nos espera.
Sempre ouvi falar do quão assustador era o
Secundário e a escolha do curso, mas poucas foram as pessoas que falaram das
amizades. À primeira vista pode não parecer uma coisa importante, mas eu não
teria aguentado sem os meus amigos. Ainda não sei como vou reagir quando daqui
a uns meses entrar numa sala, olhar à volta e perguntar: “Onde está a Emília,
que é minha vizinha de mesa desde antes de eu ter uma? O Jaime, que cresceu
comigo? A Alice, que aprendeu a andar ao meu lado? Onde está a Bia, que é a
amiga de todas as horas? A Constança, que está lá sempre para mim? A Isabela,
que nunca me deixou mal? Onde está o Tiago, que me salvou de muitas negativas?
A Maria, que me consegue sempre fazer nascer um sorriso na cara? O Spínola, que
já rendeu tantas histórias? O “Smão”, que nos faz rir à gargalhada nos piores
momentos? Onde está o João, que nunca reclama da cadeira? O Estêvão, que nunca
nos nega uma folha? Onde está o Santiago, que nos faz questionar até as coisas
mais simples?” Onde vão estar? Vão estar nas infinitas memórias claro, claro,
mas e se eu disser que preciso deles aqui, ao meu lado?
Sinceramente, acho que os amigos são o mais importante,
e sei que um curso diferente não separa, mas abala, porque nem todos são as
pessoas para quem corro quando algo está mal, mas todos eles são as pessoas que eu
preciso de ter aqui.
No outro dia vi um vídeo e acho que foi feito
para esta situação. O vídeo tinha uma pequena frase que expressava um
sentimento gigantesco. Dizia: “Que ironia ficarmos tristes pelas memórias mais
felizes!” Nem mais, concordo plenamente, mas vou ter de admitir que custa na
mesma. Não lhes digam, mas eu adoro-os a todos!
Beatriz Mendes, 9ºA