29 de maio de 2026

O PESO DO PENSAR

 Uma surpreendente e labiríntica meditação em torno do gesto criativo, do pensamento e do ato de escrever. Um não menos surpreendente e misterioso retrato de si. 

Escreve o Miguel Correia Silva, do 9º A.  Vale a pena ler!


Lanterna, pintura de George Tooker

Posso escrever sobre tudo, tudo o que a minha mente consegue assimilar pode ser usado para expressar aquilo que sinto. É esse o conceito de livre-arbítrio, nada me impede, nada me ampara, mas, mesmo assim, com todas as possibilidades, algo ainda me prende. Justamente o facto de poder expressar tudo e qualquer coisa me acorrenta ao forte, complicado e difuso dilema do medo, da hesitação e das possibilidades infinitas que só complicam a minha decisão.

“O que hei de escrever?”, pergunto-me, “Qualquer coisa”, a minha mente rapidamente responde, e é isso que me impede de começar: tudo, o triste, pesado e ineficaz ato de pensar demais, uma “dádiva” que na verdade age como uma maldição. Já se perderam as contas de quantas vezes deixei de começar as minhas criações ou quantas vezes simplesmente recomecei tudo do zero; uma pessoa como eu nunca está satisfeita! Muitos designam esta condição como “falta de criatividade”, mas, neste caso, não, desta vez é rigorosamente o contrário, o excesso incansável de criatividade, a minha mais forte fraqueza, a minha desvantagem mais vantajosa, o ato inquietante de pensar demasiado.

Muito tempo se passa desde o início da jornada desta qualidade que me assombra, muitos são os problemas que ela me causa, ainda hoje tenho noites em claro, só pensando e olhando para o profundo, escuro e assombroso abismo vazio de sentido e vasto de informações intermináveis que são os meus pensamentos. Eu sei, sei de tudo um pouco, mas cada experiência que ganho, cada livro que leio, cada pesquisa que faço só me desafiam mais e mais. minha mente torce-se e retorce-se quando se depara com o mar de ignorância em que o meu pequeno barco navega, cada vez mais percebo que – mesmo sabendo de tudo um pouco – estou em constante frustração por, em verdade, não saber nada.

É curioso como a minha mente me afasta das pessoas. Geralmente, aqueles que muito sabem estão rodeados por pessoas que admiram muito o seu saber, mas não, comigo é diferente, a minha mente não é de um “inteligente” que decora e se lembra ou de um “nerd” que só se preocupa com os números, às vezes injusto, que as avaliações proporcionam. A minha mente está à frente do tempo em que me encontro; sei que isso soa arrogante, mas digo-o com sinceridade, a minha mente tem algo diferente, um “click” que ainda não atingiu muitas das pessoas que conheço, sei disso pois olho para as pessoas ditas “comuns” ou “normais” e vejo ainda muitos pensamentos irracionais, impulsivos, inconsequentes e simplesmente sem sentido.

Agora sei que – inevitavelmente – estou condenado a estar exilado dos meus semelhantes, tudo o que me resta é a minha mente confusa, cheia, rápida e pensativa, que se alimenta do aprazível ato de saber, a minha alma deleita-se no conhecimento e diverte-se em tentar expressar – mesmosem palavras – o que se passa na minha mente perturbada.

Concluo que, para pessoas como eu, é imprescindível a presença das artes que soltam tudo o que está preso e escondido. Continuarei com poucas companhias que me compreendem, a escrever os meus poemas, a pintar os meus quadros, a compor as minhas músicas e a fazer coisas que edificam a minha alma.

Miguel Correia Silva 9.º A

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