19 de dezembro de 2014

UM POEMA DE NATAL POR DIA # 3

ilustração de Maria Keil

A NOITE DE NATAL

Em a noite de Natal
Alegram-se os pequenitos;
Pois sabem que o bom Jesus
Costuma dar-lhes bonitos.

Vão se deitar os lindinhos
Mas nem dormem de contentes
E somente às dez horas
Adormecem inocentes.

Perguntam logo à criada
Quando acode de manhã
Se Jesus lhes não deu nada.

– Deu-lhes sim, muitos bonitos.
– Queremo-nos já levantar
Respondem os pequenitos.

                 Mário de Sá-Carneiro

18 de dezembro de 2014

Um poema de Natal por dia # 2

pintura de Claude Monet

Chove. É dia de Natal. 
Lá para o Norte é melhor: 
Há a neve que faz mal, 
E o frio que ainda é pior. 

E toda a gente é contente 
Porque é dia de o ficar. 
Chove no Natal presente. 
Antes isso que nevar. 

Pois apesar de ser esse 
O Natal da convenção, 
Quando o corpo me arrefece 
Tenho o frio e Natal não. 

Deixo sentir a quem quadra 
E o Natal a quem o fez, 
Pois se escrevo ainda outra quadra 
Fico gelado dos pés. 

Fernando Pessoa

16 de dezembro de 2014

Um poema de natal por dia #1

DIA DE NATAL

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela, se multiplica em gestos esfuziante,
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
E como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha em pijama.

Ah!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

27 de novembro de 2014

Cante alentejano

A UNESCO classifica o cante alentejano como património imaterial da humanidade. Veja aqui vídeo da candidatura.

26 de outubro de 2014

Moreno, um pouco alto

escultura de Eugenio Pellini (Itália, 1869-1934)


AUTORRETRATO

(relendo um poema de Bocage)
Moreno, um pouco alto
A quem o sorriso não falta,
Castanhos os olhos
De quem um dia queria ser astronauta.

Despreocupado, talvez desatento,
Ultimamente muito cansado,
Sou um pouco ciumento,
Mas na escola sou dedicado.

Deste modo me apresento
Nesta escura noite gelada,
Pensativo, escuto o vento,
A luz ainda não apagada.

                Daniel Inácio, 10º B

20 de outubro de 2014

Porquê ler os clássicos da literatura portuguesa?

O Projecto Adamastor tem feito uma série de breves entrevistas a escritores portugueses, acerca deste tema. Convidamos os nossos alunos a irem lê-las no blogue do projecto. E porque gostámos em especial da de Mário de Carvalho, deixamos abaixo as suas respostas. 

Não que sejam precisas outras justificações para ler a literatura clássica, além da que apresentou lapidarmente Italo Calvino: é que ler os clássicos é melhor do que não os ler - ou do que não os ter lido. 

Assim, a todos desejamos boas leituras!


«Porquê Ler os Clássicos?» – Entrevista a Mário de Carvalho

Os clássicos são os livros exemplares que produzem em nós dois efeitos que um autor, também clássico, designou por ‘prodesse’ (ser útil) e ‘delectare’ (dar prazer). Neste ‘prodesse’ incluímos o melhor conhecimento dos nossos contemporâneos (somos todos contemporâneos, porque a História é muito curta); no ‘delectare’, o gosto de acompanhar as combinações surpreendentes que os melhores autores souberam explorar na nossa língua.

A definição de clássico está longe de ser consensual. Afinal, o que torna uma obra literária um clássico?

Clássico pode ter dois sentidos. O etimológico que remete para um conceito de excelência, elevação e exemplaridade. E aqui, encontramo-nos próximos da ideia de cânone. E um, mais corrente, que designa qualquer obra literária do passado, independentemente da sua qualidade. Estas merecem também ser preservadas e divulgadas. Há sempre um olhar a que podem fazer falta.


Eça e Pessoa continuam a ser bastante lidos, mas nem todos tiveram tal sorte. Que autor português considera que foi imerecidamente votado ao esquecimento?

José Rodrigues Miguéis. Mas cuidado, é melhor falarmos em obras do que em autores, para não cairmos numa fácil ‘falácia autoral’. Mas acha mesmo que Eça continua a ser bastante lido? Em 1947 era possível a um jornal publicar um inquérito perguntando ‘O que pensa do conselheiro Acácio?’ Experimente fazer a mesma pergunta hoje.


(...) que obra contemporânea lhe parece capaz de vencer o teste do tempo e vir a integrar o cânone literário português?

‘A Casa Grande de Romarigães’, creio.


«Não estou nada preocupado com o futuro do livro», afirmou num debate realizado na Feira do Livro de Lisboa 2010 (...). Tendo em conta o desenvolvimento do mercado digital nos últimos anos, mantém a mesma opinião?

Um livro digital não deixa de ser um livro. Já os tivemos em tabuinhas de barro, em papiros, em pergaminho, em placas de madeira, em folhas de palmeira e por aí fora. Por que não em formato digital? A ‘vexata quaestio’ costuma ser a do futuro do romance, ou mesmo da literatura. Anda a ser arrastada pelo menos desde o princípio do século XX. É já, pois, uma questão com uma certa idade. Tenho a impressão de que ela (a questão) vai sobreviver por mais umas dezenas de anos.


http://projectoadamastor.org/porque-ler-os-classicos-entrevista-a-mario-de-carvalho/

5 de outubro de 2014

Hino à Razão

Neste aniversário da Implantação da República, propomos a leitura de um poema de Antero de Quental, o maior vulto da Geração de 70. 


Antero indagou as grandes questões filosóficas e sociais do seu tempo e procurou incessantemente uma solução política e ética para Portugal.

Aqui fica um dos seus poemas mais luminoso acerca do devir histórico:

          Hino à Razão

Razão, irmã do Amor e da Justiça, 
Mais uma vez escuta a minha prece. 
É a voz dum coração que te apetece, 
Duma alma livre só a ti submissa. 

Por ti é que a poeira movediça 
De astros, sóis e mundos permanece; 
E é por ti que a virtude prevalece, 
E a flor do heroísmo medra e viça. 

Por ti, na arena trágica, as nações 
buscam a liberdade entre clarões; 
e os que olham o futuro e cismam, mudos, 

Por ti podem sofrer e não se abatem, 
Mãe de filhos robustos que combatem 
Tendo o teu nome escrito em seus escudos! 

                                                                    
                                   Antero de Quental, Sonetos


16 de setembro de 2014

Desassossego

Hoje com Fernando Pessoa - Bernardo Soares, que nos diz da nossa condição:
Náutilo, fotografia de Edward Weston, 1927

«Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugná-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito.»

Livro do Desassossego, Bernardo Soares

12 de setembro de 2014

O Projecto Adamastor




Uma biblioteca digital de obras literárias em português, disponibilizadas de forma gratuita. Na página inicial do Projecto Adamastor, pode ler-se: 

O mercado do livro digital, que nos últimos anos tem vindo a crescer significativamente no estrangeiro, começa agora a desenvolver-se no nosso país (...). No entanto, tal desenvolvimento está limitado pela insuficiente oferta de títulos em português (...).
Neste sentido, o Projecto Adamastor tem como principal objectivo atenuar essa escassez através da criação de uma biblioteca digital de obras literárias em domínio público, obras essas que serão disponibilizadas de forma gratuita e em formato EPUB, sem qualquer tipo de restrição.
Tal não significa que o projecto se resuma à mera conversão de textos disponíveis online, bem pelo contrário: os colaboradores do Projecto Adamastor procuram acrescentar valor através de uma revisão cuidada de cada obra, de modo a minimizar o número de erros e a atingir uma versão fiel ao original, actualizada de acordo com a ortografia vigente. Tudo isto acompanhado por um design atractivo.

10 de setembro de 2014

Histórias da escola



Ir à escola não foi fácil em todas épocas ou em todos os lugares do mundo. Ir à escola não foi sempre um direito consagrado, de que todas as crianças, pelo menos em teoria, pudessem usufruir. Que o digam aqueles que, por razões de sexo, da cor da pele, da classe social ou da sua cultura foram - e são ainda - discriminados e impedidos de aceder a uma educação de qualidade.

A dois ou três dias do recomeço das aulas, temos gosto em lembrar o exemplo de Ruby Bridges, nascida em1954 e que nesta semana completou 60 anos. Foi a primeira criança negra a frequentar uma escola primária "de brancos", no Sul dos Estados Unidos. E teve de lutar por isso. E de enfrentar a violenta desaprovação da sociedade conservadora e racista em que vivia.

Na imagem acima, colhida a 14 de Novembro de 1960, vêmo-la a caminho da escola, escoltada por marshalls que a protegiam da multidão enfurecida.

Ruby e a sua família enfrentaram um duro e longo combate por um direito que hoje nos parece tão assegurado que, por vezes, pouco o valorizamos. E no entanto, pareceu-lhes a eles merecer todos os sacrifícios - e não foram poucos, como pode ler-se aqui

Que o seu exemplo nos inspire no começo deste ano lectivo e nos faça acarinhar a escola e valorizar o estudo.

9 de setembro de 2014

Viajar com a Arte

Porque a arte, a memória e a identidade cultural são importantes, aqui deixamos a proposta de uma visita ao Museu Machado de Castro, em Coimbra, que reabriu em 2013, depois de uma remodelação que durou vários anos, e em que trabalhou uma equipa multidisciplinar composta por geólogos, arqueólogos, historiadores, arquitetos e museólogos.

Quem nos recomenda em primeira mão este percurso de descoberta é o site espanhol Viajar con el Arte, que apresenta uma entusiástica descrição, belamente ilustrada, das coleções do museu, a qual pode ser consultada na ligação acima. Alunos de espanhol, aproveitem para ler e treinar o uso da língua.

Santa Isabel, de João de Ruão, col. Museu Machado de Castro

6 de setembro de 2014

Recomeçar

Um poema de Miguel Torga para começarmos com ânimo o novo ano escolar.

praia da Nazaré, 1965, fotografia de Bill Perlmutter

Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...


Miguel Torga

4 de agosto de 2014

Leituras para férias

Em espanhol, autores como Borges, Cortazar, Maupassant, Allan Poe, Raymond Carver, García Marquez... Disponibilizados em Biblioteca de cuentos y relatos. Vale a pena passar por lá.

Cuentosinfin

Biblioteca de cuentos y relatos

3 de julho de 2014

Sophia de Mello Breyner - momentos e documentos

A página dedicada a Sophia de Mello Breyner Andresen no sítio da Biblioteca Nacional: um local a visitar e a pesquisar: aqui.


30 de junho de 2014

A criança que fui

"... achar / Em mim um pouco de quando era assim." 

Poema de Fernando Pessoa, interpretado por Rogério Godinho. Compositor, pianista e cantor, Rogério Godinho é um dos nomes em cartaz para a "Noite do Desassossego", que a Casa Fernando Pessoa promove no próximo dia 6 de Julho. 

 

A criança que fui chora na estrada. 
Deixei-a ali quando vim ser quem sou; 
Mas hoje, vendo que o que sou é nada, 
Quero ir buscar quem fui onde ficou. 

 Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou 
 A vinda tem a regressão errada. 
 Já não sei de onde vim nem onde estou. 
 De o não saber, minha alma está parada. 

 Se ao menos atingir neste lugar 
 Um alto monte, de onde possa enfim 
 O que esqueci, olhando-o, relembrar, 

 Na ausência, ao menos, saberei de mim, 
 E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar 
 Em mim um pouco de quando era assim.

                                         Fernando Pessoa