19 de janeiro de 2014

O poder da arte

De Bernini e Caravaggio a Van Gogh, Picasso, Rothko, passando por Rembrandt e outros, um conjunto de excelentes documentários da BBC, legendados em português, que nos conduzem numa viagem de descoberta e maravilhamento: as circunstâncias históricas, a vida dos artistas, a música do seu tempo em registo de fundo, e, especialmente, a explicação das obras, reveladas em imagens deslumbrantes e vivas, cheias de pormenores que raramente conseguimos descortinar nos museus ou em visitas não guiadas:


16 de janeiro de 2014

O Amor Cortês

Ficaram célebres as regras do amor cortês definidas no século XII por Lianor de Aquitânia. Lianor foi duquesa da Gasconha e da Aquitânia, Condessa de Poitiers e rainha consorte de França e Inglaterra. Era a filha mais velha de Guilherme X, a quem sucedeu em 1137. Fluente em cerca de oito línguas, aprendeu também matemática e astronomia, leis e filosofia. Esta educação, excepcional numa mulher e numa época em que a maior parte dos governantes eram analfabetos, permitiu-lhe desenvolver uma notável cultura. A sua fortuna pessoal e o seu apurado sentido político fizeram-na uma das mulheres mais poderosas e influentes da Idade Média.

























AS 31 REGRAS DO AMOR CORTÊS

definidas por Lianor de Aquitânia (séc. XII-XIII) e sua «corte do amor»

1.   O casamento não constitui desculpa legítima contra o amor.
2.   Ninguém deve ser proibido de amar.
3.   Ninguém pode ter duas ligações ao mesmo tempo.
4.   Um homem só pode amar quando é adulto.
5.   Quem não é ciumento não ama.
6.   O amor deve sempre diminuir ou aumentar.
7.   Os prazeres que o amante obtém sem consentimento da amada não têm sabor algum.
8.   Em amor, o amante que sobrevive à amada deve observar uma viuvez de dois anos.
9.   Ninguém pode amar a menos que a isso seja levado pela vontade do amor.
10. O amor não habita nunca na casa da avareza.
11. Não parece bem amar alguém com quem se tem vergonha de casar.
12. O verdadeiro amante não gosta de amar outrém para além do seu amado.
13. O amor raramente subsiste depois de divulgado.
14. O amor que se consegue facilmente despreza-se; o amor que se ganha tem-se em alta estima.
15. Todo o amante deve empalidecer à vista da sua amada.
16. O coração do verdadeiro amante treme aquando da aparição súbita do ser amado.
17. O novo amor faz esquecer o velho.
18. Só a honestidade nos faz dignos do amor.
19. Se o amor diminui, depressa acaba e raramente revive.
20. O verdadeiro amante é sempre tímido
21. O afecto do amante é sempre acrescentado pelo ciúme verdadeiro.
22. O afecto do amante é sempre aumentado pelo respeito da amada.
23. Aquele que o amor perturba come menos e dorme menos.
24. Todas as acções do amante estão ligadas ao pensamento da amada.
25. O verdadeiro amante só aprecia aquilo que ele pensa agradar ao ser amado.
26. O amor nada pode recusar ao amor.
27. O verdadeiro amante nunca se farta dos favores da amada.
28. É a presunção que leva o amante a suspeitar da amada.
29. Não deve amar aquele que é tentado pela luxúria.
30. O verdadeiro amante vive da contemplação ininterrupta da sua amada.
31. Nada proíbe que uma mulher seja amada por dois homens ou um homem por duas mulheres.

in A Moda - 5000 Anos de Elegância, Ed. Verbo


11 de janeiro de 2014

Uma péssima escolha

Diz Miguel Real no jornal Público, a propósito da substituição, nos novos programas de Português, do romance Memorial do Convento, de José Saramago, pelo Ano da Morte de Ricardo Reis, do mesmo autor. Ouçamo-lo, porque muitos de nós concordamos com ele e lamentamos esta decisão.
Verdadeiramente, do ponto de vista estético, nada há a opor à introdução de O Ano da Morte de Ricardo Reis (OAMRR) no futuro programa de Português do 12.º ano em substituição de Memorial do Convento (MC). É uma escolha estética de qualidade e garante a continuidade do escritor José Saramago nos livros de leitura obrigatória do ensino secundário.
Porém, do ponto de vista pedagógico, considerando as características literárias e sociais pertinentes a MC, o nível etário e o horizonte psicológico dos alunos do 12.º ano, adolescentes entre os 16 e os 17 anos, de fraca apetência cultural, bem como a comprovadíssima óptima recepção de MC por parte de estudantes e professores, não podemos deixar de considerar a alteração uma péssima escolha.
Academicamente, OAMRR tem sido um dos romances de Saramago mais privilegiados pelos professores universitários e pelos críticos literários, expresso nos inúmeros prémios recebidos. OAMRR, desenhando tanto uma intertextualidade profundamente original com a obra de Fernando Pessoa quanto criticando a mentalidade dominante deste autor, é considerado menos ideológico que MC, mais intelectualizado, mais literato, mais esteticamente conotativo e auto-referente. Por seu lado, MC, considerada uma narrativa mais ideológica, expressão estética relevante do que Saramago entendia por história de Portugal, firmada na luta de classes e na perfídia das elites dominantes, torna-se, de facto, do ponto de vista da representação social, um romance incomodativo – que professor negaria que D. João V e a sua risível corte não poderiam ser identificados, hoje, com a elite política e administrativa de Portugal?
Deixamos à consciência do leitor 10 pontos enunciadores de uma visão de harmonização pedagógica entre o conteúdo de MC e a idade mental dos alunos, incitadora de uma visão lírica da História em tempo de profundo cepticismo, quando a Literatura pode (e deve) ser também, para as idades em apreço, motivadora de encantamento poético, de optimismo existencial, de vontade de viver em dignidade, características constitutivas de MC.
1. - MC apresenta uma diferença entre a representação da história visível (presente nos manuais da disciplina de História) e a desconstrução da mesma, evidenciando uma profunda reinterpretação e reflexão sobre a sociedade, forçando a necessidade de inquirição do aluno sobre um outro sentido para a História;
2. - MC é um dos romances de Saramago em que se colocam com maior e melhor nitidez a questão da nova complexidade do estatuto do narrador, elemento de profunda originalidade da obra deste escritor;

3. - MC é atravessado, como referimos, por uma onda de lirismo como dificilmente encontra paralelo no romance português contemporâneo, lirismo profundamente harmónico com a mente adolescente dos alunos, para a qual a entrega à Arte (Scarlatti), à Ciência (Bartolomeu de Gusmão) e ao Maravilhoso (Blimunda) são alternativas credíveis na opção pelo sentido de vida;

4. - MC ostenta uma galeria de personagens maravilhosas, singularmente diferentes da normalidade social, que encanta a mentalidade adolescente, criando-lhe um optimismo existencial, uma vontade de enfrentar a vida como raramente se encontra no romance português;

5. - MC caracteriza na figura de D. João V e dos seus áulicos alguns dos males éticos de que padece a permanente elite portuguesa: a ostentação, a vaidade, o excesso, a ambição tola por imitação de modas estrangeiras, a indiferença para com o sofrimento das populações, a antiga repressão sobre a sexualidade do corpo feminino;

6. - MC denuncia, em estilo irónico, sarcástico, até jocoso, estilo que se conforma com a mentalidade adolescente, atraindo-a, o contexto sócio-político megalómano dos costumes cortesãos do século XVIII e a mentalidade interesseira da corte, obviando a evidentes paralelismos com a actualidade;
7. - MC expõe uma amplidão lexical como raramente se assiste no actual romance português, cruzando vocabulário erudito com popular, histórico com presente, abrindo um novo horizonte no domínio plástico da língua aos alunos;
8. - MC enfatiza a necessidade de transgressão social para que a História avance, enaltecendo a capacidade de acção comandada pelo sonho, pelo visionarismo, pela vontade de criação de um futuro diferente;
9. - MC lega uma mensagem implícita, que repercute inconscientemente na mente dos alunos: a necessidade de cada um construir a sua "passarola", de possuir o seu "sonho" e a necessidade de ser diferente dos restantes para o cumprir;
10. - Finalmente, por todos estes motivos, MC é um dos raros textos da literatura portuguesa que interpenetra de um modo admirável Vida e Literatura, Arte e Cidadania, Existência e Reflexão, não raro reconciliando os estudantes com o estudo da Língua e da História.
Dir-me-ão que, oposto ao presente, poder-se-ia criar um texto com 10 características relevantes de OAMRR que de igual modo o qualificariam como uma narrativa de grande qualidade literária, não inferior a MC. É verdade. Eu próprio o fiz. E, por isso, iniciei este artigo referindo que nada havia a opor à integração de OAMRR nas obras de leitura obrigatória do 12.º ano (único problema, externo ao romance, consistiria numa porventura exagerada presença de Fernando Pessoa no novo programa do 12.º ano, mas, reconheço, também este argumento é subjectivo).
Se estética e literariamente é verdade que entre ambos a qualidade é semelhante, a substituição de MC por OAMRR revelar-se-á, pedagogicamente, uma péssima escolha, uma escolha feita de professores sensíveis à literatura para professores sensíveis à literatura, mas, lamentavelmente, insensíveis à expressão pedagógica da literatura em mentes adolescentes. Porém, como desde a década de 1960 se sabe, a literatura também é recepção, e, falhada esta, um belíssimo texto, de grande profundidade estética, pode tornar-se uma leitura verdadeiramente fastidiosa no interior da sala de aula, sem consequências activas e futurantes na vida de alunos adolescentes.
Proposta: não seria pedagogicamente mais razoável permitir uma escolha livre, em alternativa, entre os dois romances? É mesmo obrigatório, para fazer brilhar OAMRR, eliminar Memorial do Convento?
MIGUEL REAL, O Público, 10/01/2014

7 de janeiro de 2014

Vinte e cinco mil obras arte

A National Gallery of Art, dos Estados Unidos, em parceria com a fundação Samuel H. Kress, disponibilizou 25 mil imagens de obras de arte, em alta resolução, que se podem descarregar gratuitamente a partir daqui

As imagens estão divididas por categorias e podem ser consultadas recorrendo a um motor de busca que permite procuras pelo nome do autor e pelo título da obra.

Abaixo, uma pintura do artista francês Edouard Vuillard, datada de 1895, que pode ser vista ou descarregada nesta galeria.


3 de janeiro de 2014

Janeiro, o mês de Janus

O mês de Janeiro era, no calendário Juliano (instituído por Júlio Cesar em 45 a.C.), dedicado ao deus Janus, representado como um ser de dois rostos. Se partiam em viagem, se iniciavam um negócio, um projecto, se esperavam a chegada de um filho, os romanos consagravam-se a Janus, divindade dos caminhos, dos inícios e dos fins.
O templo de Janus, em Roma, tinha doze portas, uma por cada mês do ano. As portas mantinham-se fechadas em tempo de paz e eram abertas em tempo de guerra. No primeiro dia de cada mês, ofertava-se ao deus um pão de cereal amassado com azeite e vinho - a tríade alimentar da antiguidade clássica que foi também, durante muitos séculos, a base do nosso sustento. 
Kalendas de Ianuarius, dia 1 de Janeiro - era o dia de pedir perdão e de iniciar mudanças. Nesta data, os cônsules romanos tomavam posse do seu cargo anual e realizavam rituais públicos pela prosperidade nacional. O primeiro de Janeiro era também dedicado a Strénia, a deusa radiosa da saúde e, seguindo uma tradição muito antiga, que remontava aos tempos de Rómulo, neste dia os governantes recebiam do seu povo ramos de verbena, cortados no bosque consagrado à deusa. Com o passar do tempo, este presente simbólico foi-se modificando e enriquecendo, antecipando-se a sua entrega para as Saturnálias (festividades em honra do deus Saturno que ocorriam em Dezembro, por altura do solstício de Inverno e que, segundo alguns autores, antecipam os nossos presentes natalícios).
(Segundo informação recolhida em Histórias de la História)

16 de dezembro de 2013

Cala-te, vento velho! É o Natal que passa

 
Natividade, Fra Angélico, séc. XV

               Natal à Beira-Rio

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado…

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia…
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

                          David Mourão-Ferreira, 1960

15 de dezembro de 2013

Bailia #2



Bailemos nós já todas três, ai amigas 
sob estas roseiras floridas;
e quem for jeitosa, como nós, jeitosas,

       se amigo amar, 
sob estas roseiras floridas
       virá bailar.


Bailemos nós já todas três, ai irmãs,
sob estas cheirosas rosas;

e quem for formosa, como nós, formosas,
       se amigo amar,
sob estas cheirosas rosas
       virá bailar.

Por Deus, ai amigas, enquanto não fizermos outras coisas,
sob este ramo florido bailemos;
e quem parecer bem, como nós parecemos, 
       se amigo amar,
sob estas roseiras onde nós bailamos,
       virá bailar.


                Ana Ribeiro, Ângela Costa, 10ºD

11 de dezembro de 2013

Cantiga de Amigo

Os poetas do século XX - tal como as nossas alunas de Literatura - gostavam de recriar a lírica dos trovadores, cuja frescura inaugural continua a comover-nos. Deixaremos aqui algumas dessas recriações, começando com um poema de saudade de José Carlos Ary dos Santos


               























              Cantiga de Amigo

Nem um poema nem um verso nem um canto
tudo raso de ausência tudo liso de espanto
e nem Camões, Virgílio, Shelley, Dante
o meu amigo está longe e a distância é bastante.

Nem um som nem um grito nem um ai
tudo calado todos sem mãe nem pai
Ah não Camões, Virgílio, Shelley, Dante!
o meu amigo está longe e a tristeza é bastante.

Nada a não ser este silêncio tenso
que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai Camões, Virgílio, Shelley, Dante:
o meu amigo está longe e a saudade é bastante!

                           Ary dos Santos

9 de dezembro de 2013

Bailia



Dancemos nós já todas três, ai amigas,
Sob estas avelaneiras floridas
E quem for bela, como nós, belas,
       Se amigo amar,
Só sob estas avelaneiras floridas
       Virá dançar.

Dancemos nós já todas três, ai irmãs,
Sob este ramo destas avelãs;
E quem for formosa, como nós, formosas,
       Se amigo amar,
Sob este ramo destas avelãs,
       Virá dançar.

Por Deus, ai amigas, enquanto outra coisa não fizermos,
Sob este ramo florido dançaremos;
E quem formosura irradiar, como nós irradiamos,
       Se amigo amar,
Sob este ramo em que nós dançamos,
       Virá dançar.

         Iva Leão, Joana Delgado,  10ºD (recrição da cantiga de Aireas Nunes)

6 de dezembro de 2013

Mandela, um homem livre


Eu não sou nem mais virtuoso, nem mais abnegado do que qualquer outra pessoa, mas descobri que não conseguia nem sequer desfrutar das liberdades mais mesquinhas e limitadas que me eram permitidas, sabendo que o meu povo não era livre. 

Nelson Mandela, O Longo Caminho para a Liberdade, 1995

5 de dezembro de 2013

Se eu pudesse

pintura de Vítor Alves
Cantiga elaborada a partir da composição de Pêro da Ponte, “Se eu pudesse desamar

Se eu pudesse ajudar
a quem me sempre ajudou
e pudesse o desconforto negar
a quem me sempre desconforto negou
Assim me sentiria eu,
       se eu pudesse amor dar
       a quem me sempre amor deu

Mais não posso eu partilhar
pois meu coração já partilhou
porquanto me fez desamparar
a quem me sempre desamparou.
E por isto não esperava eu,
       porque não posso amor dar
       a quem me sempre amor deu.

Mais rogo a Deus para lembrar
a quem me assim sempre lembrou
ou que pudesse cuidar
de quem de mim sempre cuidou
E logo desejaria eu,
       se eu pudesse amor dar
       a quem me sempre amor deu

Ou que ousasse eu ignorar
a quem me nunca ignorou
por que me fez em si acreditar
se ele nunca em mim acreditou.
E por isto rezo eu
       porque não posso amor dar
      a quem me sempre amor deu.

                                  Ana Ribeiro e Ângela Costa, 10ºD

4 de dezembro de 2013

O Velho e o Mar



Um belo filme de animação, pintado à mão, baseado na novela "O Velho e o Mar", de Ernest Hemingway, que faz parte das obras que recomendamos aos nossos alunos. Aqui fica, como incentivo à leitura daqueles que ainda estão hesitantes. Certo que o filme está em inglês, mas essa não é uma dificuldade intransponível. 

 "O Velho e o Mar" é um livro lindíssimo que nos ensina acerca da perseverança, da coragem e da perda. E de quão frutíferas podem ser as amizades entre os mais velhos, cheios de sageza e de experiência, e os mais novos, com a sua imaginação e abertura à vida. 

Recordamos que com este livro Hemingway ganhou, em 1952, o prémio Pulitzer o que, possivelmente, terá contribuido para que o prémio Nobel lhe fosse atribuído em 1954.

20 de novembro de 2013

Blimunda #18


Já está online o número 18 da revista Blimunda que pode ser descarregado aqui.

Deste número, a Fundação Saramago destaca:
  • as entrevistas a dois jovens autores em língua portuguesa, Afonso Cruz e Ondjaki; 
  • um texto de Jeronimo Pizarro sobre literatura de viagens, com passagens por Fernando Pessoa, Camilo Pessanha e Dinis Machado; 
  • os 130 anos da Biblioteca de São Lázaro, em Lisboa;
  • a recente edição portuguesa de Como Apanhar uma Estrela, de Oliver Jeffers; 
  • o centenário de Camus, através de um texto de Juan José Tamayo;
  • e, como se celebram os 91 anos de José Saramago, uma mostra das dedicatórias que outros escritores deixaram gravadas em livros que ocupam as prateleiras da biblioteca Saramago. 
Boas leituras!

17 de novembro de 2013

Entrevista a José Saramago, 1989

Em 1989, José Saramago foi entrevistado por Rentes de Carvalho - escritor e professor de Literatura Portuguesa, residente na Holanda desde 1956 - que nos dá conta dessa entrevista no seu blogue, Tempo Contado. 

Um quarto de século volvido, o diálogo entre os dois escritores mantém todo o interesse. Ora leiam:

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Aos sessenta e seis anos José Saramago vive confortavelmente a dois passos da residência oficial do primeiro-ministro, sorri divertido quando lhe pergunto qual é a sensação de, quase do dia para a noite, se ver liberto de tantas pressões e ser considerado como the grand old man das letras portuguesas: 


«Se o êxito tivesse vindo quando eu tinha uns trinta ou quarenta, anos, é possível que, depois de viver muito tempo com semelhante aura, eu estivesse imbuído dum sentimento de importância e caminhasse pelas ruas de Lisboa com um ar de patriarca e glória nacional. Daqui a cinco ou dez anos, se tiver tempo para escrever o que ainda penso escrever, talvez o possam dizer. Mas hoje não tiro daí nenhum sentimento de vaidade ou de orgulho, não me tomo por importante, e quando ouço afirmações tão simpáticas como essa, a minha tentação, sinceramente, é olhar para o lado, a ver se estão a falar com outra pessoa.»


Quais são, na sua opinião, as circunstâncias que promoveram em Portugal o actual interesse do público pelo realismo mágico e o romance histórico?
«Eu não sei se haverá de facto um interesse do público orientado para essas duas áreas, se exactamente é verdade existir esse interesse. O que sim, acontece, é um fenómeno bastante mais geral e eventualmente positivo: depois do 25 de Abril, uma data que vai ficar como uma inevitável referência no plano cultural e no plano literário, aconteceu qualquer coisa que é novo nesta terra, e que foi o súbito - porque efectivamente foi como que uma espécie de explosão, de erupção - o súbito interesse do público português pelos seus escritores. Quer dizer: não é que antes não existisse um interesse, mas digamos que a atenção do público se dispersava mais pelas obras traduzidas. Quando dois ou três anos depois começaram efectivamente a aparecer obras, e refiro-me especialmente ao romance, houve de facto como que uma descoberta dos romancistas portugueses por parte dos leitores portugueses, e que, julgo eu que tem que ver muito com - eu não quero cair na velha questão da perda da identidade nacional, o que creio ser um falso problema - tem a ver, enfim, com o regresso à pátria, ao nosso ponto de partida. Parece notar-se desde então como que uma espécie de regresso do interesse dos portugueses a si próprios. Quer dizer: passaram a interessar-se por si próprios e, consequentemente, passaram a interessar-se mais pela sua história e pela sua cultura, como uma descoberta de si mesmos no plano histórico e cultural geral.»


17 de outubro de 2013

Tantos Livros do Desassossego quantos os leitores



O Livro de Desassossego, uma das obras mais fascinantes de Fernando Pessoa - ou por outra, do seu heterónimo Bernardo Soares, o empregado de comércio de vida apagada que deixou, em fragmentos soltos, o relato disperso de um quotidiano anónimo e das suas reflexões pessoais - pode agora ser consultado num arquivo digital hipermédia.

Lemos no SAPO Tek:

"Com versões em português, inglês e espanhol, o objetivo é fazer deste arquivo o principal instrumento no mundo para estudar o Livro do Desassossego (...).
Qualquer utilizador, especialista ou não, vai poder criar a sua própria edição do Livro do Desassossego, com base na interpretação dos marcadores textuais e semânticos dos fragmentos» 


E isto sim,é fascinante! Dir-se-ia que Pessoa antecipou o hipertexto e a internet, de tal forma o Livro do Desassossego se adapta à realidade digital. O arquivo encontra-se aqui.