20 de novembro de 2013

Blimunda #18


Já está online o número 18 da revista Blimunda que pode ser descarregado aqui.

Deste número, a Fundação Saramago destaca:
  • as entrevistas a dois jovens autores em língua portuguesa, Afonso Cruz e Ondjaki; 
  • um texto de Jeronimo Pizarro sobre literatura de viagens, com passagens por Fernando Pessoa, Camilo Pessanha e Dinis Machado; 
  • os 130 anos da Biblioteca de São Lázaro, em Lisboa;
  • a recente edição portuguesa de Como Apanhar uma Estrela, de Oliver Jeffers; 
  • o centenário de Camus, através de um texto de Juan José Tamayo;
  • e, como se celebram os 91 anos de José Saramago, uma mostra das dedicatórias que outros escritores deixaram gravadas em livros que ocupam as prateleiras da biblioteca Saramago. 
Boas leituras!

17 de novembro de 2013

Entrevista a José Saramago, 1989

Em 1989, José Saramago foi entrevistado por Rentes de Carvalho - escritor e professor de Literatura Portuguesa, residente na Holanda desde 1956 - que nos dá conta dessa entrevista no seu blogue, Tempo Contado. 

Um quarto de século volvido, o diálogo entre os dois escritores mantém todo o interesse. Ora leiam:

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Aos sessenta e seis anos José Saramago vive confortavelmente a dois passos da residência oficial do primeiro-ministro, sorri divertido quando lhe pergunto qual é a sensação de, quase do dia para a noite, se ver liberto de tantas pressões e ser considerado como the grand old man das letras portuguesas: 


«Se o êxito tivesse vindo quando eu tinha uns trinta ou quarenta, anos, é possível que, depois de viver muito tempo com semelhante aura, eu estivesse imbuído dum sentimento de importância e caminhasse pelas ruas de Lisboa com um ar de patriarca e glória nacional. Daqui a cinco ou dez anos, se tiver tempo para escrever o que ainda penso escrever, talvez o possam dizer. Mas hoje não tiro daí nenhum sentimento de vaidade ou de orgulho, não me tomo por importante, e quando ouço afirmações tão simpáticas como essa, a minha tentação, sinceramente, é olhar para o lado, a ver se estão a falar com outra pessoa.»


Quais são, na sua opinião, as circunstâncias que promoveram em Portugal o actual interesse do público pelo realismo mágico e o romance histórico?
«Eu não sei se haverá de facto um interesse do público orientado para essas duas áreas, se exactamente é verdade existir esse interesse. O que sim, acontece, é um fenómeno bastante mais geral e eventualmente positivo: depois do 25 de Abril, uma data que vai ficar como uma inevitável referência no plano cultural e no plano literário, aconteceu qualquer coisa que é novo nesta terra, e que foi o súbito - porque efectivamente foi como que uma espécie de explosão, de erupção - o súbito interesse do público português pelos seus escritores. Quer dizer: não é que antes não existisse um interesse, mas digamos que a atenção do público se dispersava mais pelas obras traduzidas. Quando dois ou três anos depois começaram efectivamente a aparecer obras, e refiro-me especialmente ao romance, houve de facto como que uma descoberta dos romancistas portugueses por parte dos leitores portugueses, e que, julgo eu que tem que ver muito com - eu não quero cair na velha questão da perda da identidade nacional, o que creio ser um falso problema - tem a ver, enfim, com o regresso à pátria, ao nosso ponto de partida. Parece notar-se desde então como que uma espécie de regresso do interesse dos portugueses a si próprios. Quer dizer: passaram a interessar-se por si próprios e, consequentemente, passaram a interessar-se mais pela sua história e pela sua cultura, como uma descoberta de si mesmos no plano histórico e cultural geral.»


17 de outubro de 2013

Tantos Livros do Desassossego quantos os leitores



O Livro de Desassossego, uma das obras mais fascinantes de Fernando Pessoa - ou por outra, do seu heterónimo Bernardo Soares, o empregado de comércio de vida apagada que deixou, em fragmentos soltos, o relato disperso de um quotidiano anónimo e das suas reflexões pessoais - pode agora ser consultado num arquivo digital hipermédia.

Lemos no SAPO Tek:

"Com versões em português, inglês e espanhol, o objetivo é fazer deste arquivo o principal instrumento no mundo para estudar o Livro do Desassossego (...).
Qualquer utilizador, especialista ou não, vai poder criar a sua própria edição do Livro do Desassossego, com base na interpretação dos marcadores textuais e semânticos dos fragmentos» 


E isto sim,é fascinante! Dir-se-ia que Pessoa antecipou o hipertexto e a internet, de tal forma o Livro do Desassossego se adapta à realidade digital. O arquivo encontra-se aqui.


25 de setembro de 2013

O poder da música


SCHUMANN POR HOROWITZ *


São herança camponesa, as mãos.
Estas pequenas mãos, de geração
em geração, vêm de muito longe:
amassaram a cal, abriram sulcos
frementes na terra negra, semearam
e colheram, ordenharam cabras,
pegaram em forquilhas para limpar 
currais: de sol a sol nenhum 
trabalho lhes foi alheio.
Agora são assim: frágeis, delicadas,
nascidas para dar corpo a sons
que, noutras épocas, outras mãos
se obstinaram em escrever como
se escrevessem a própria vida.
Ao vê-las, ninguém diria que
a terra corria no seu sangue.
São mãos envelhecidas, mas no teclado
são capazes do inacreditável: juntar
nos mesmos compassos o rumor
dos bosques em Setembro e os risos
infantis a caminho do mar.

                                       Eugénio de Andrade

                                  ~~~~~~~~~~~~
* Vladimir Horowitz (1903-1989) é considerado um dos mais brilhantes pianistas de todos os tempos. Diz-nos Eugénio de Andrade, no poema acima, que, ao tocar uma peça de Schuman, as pequenas mãos de Horowitz têm o poder de acordar "o rumor dos bosques em Setembro” e o riso das crianças a caminho do mar. Oiçamo-lo então.



23 de setembro de 2013

Não posso adiar o coração





Morreu hoje, em Lisboa, aos 88 anos, o poeta António Ramos Rosa, autor de quase cem volumes de poesia, desde O Grito Claro (1958), que marcou a sua estreia, até Em Torno do Imponderável, o seu último livro de poemas, publicado no ano passado.

Além da vasta obra poética, escreveu ensaios e traduziu autores estrangeiros, sobretudo de língua francesa. Era ainda um notável desenhador.


O poema que aqui divulgamos é bem conhecido e marcou, pelo seu apelo à liberdade e ao amor, num tempo em que ambos eram vistos com suspeição, gerações de leitores. 



Não posso adiar o amor

Não posso adiar o amor para outro século 
não posso 
ainda que o grito sufoque na garganta 
ainda que o ódio estale e crepite e arda 
sob as montanhas cinzentas 
e montanhas cinzentas 

Não posso adiar este braço 
que é uma arma de dois gumes amor e ódio 

Não posso adiar 
ainda que a noite pese séculos sobre as costas 
e a aurora indecisa demore 
não posso adiar para outro século a minha vida 
nem o meu amor 
nem o meu grito de libertação 

Não posso adiar o coração.

           Viagem Através de uma Nebulosa, 1960


13 de setembro de 2013

Recomeçando

Outro ano lectivo começa. Abrindo novo ciclo, convidamos à leitura de Trindade Coelho, um dos mestres do conto rústico português. Retirámos de Os meus Amores, colectânea que reune um conjunto de contos cheios de reminiscências da infância do autor, vivida em Trás-os-Montes, esta parábola que celebra a união de esforços e a colaboração entre os seres humanos. Que nos inspire neste novo ciclo. 
Parábola dos sete vimes

   Era uma vez um pai que tinha sete filhos. Quando estava para morrer, chamou-os todos sete, e disse-lhes assim:  
   – Filhos, já sei que não posso durar muito; mas antes de morrer, quero que cada um de vós me vá buscar um vime seco e mo traga aqui.
   – Eu também? – perguntou o mais pequeno, que tinha só quatro anos. O mais velho tinha vinte e cinco e era um rapaz muito reforçado e o mais valente da freguesia. 
   – Tu também – respondeu o pai ao mais pequeno. 
   Saíram os sete; e daí a pouco tornaram a voltar, trazendo cada um seu vime seco. O pai pegou no vime que trouxe o filho mais velho e entregou-o ao mais novinho, dizendo-lhe: 
   – Parte esse vime. 
   O pequeno partiu o vime, e não lhe custou nada a partir. Depois, o pai entregou outro ao mesmo filho mais novo e disse-lhe:
      – Agora parte também esse. 
     O pequeno partiu-o; e partiu, um a um, todos os outros, que o pai lhe foi entregando, e não lhe custou nada parti-los todos. Partindo o último,  o pai disse outra vez aos filhos: 
   – Agora ide procurar outro vime e trazei-mo.
   Os filhos tornaram a sair e daí a pouco estavam outra vez ao pé do pai, cada um com o seu vime. 
   – Agora dai-mos cá - disse o pai. E dos vimes todos fez um feixe, atando-os com um vincelho. E, voltando-se para o filho mais velho, disse-lhe assim: 
   – Toma este feixe! Parte-o! O filho empregou quanta força tinha, mas não foi capaz de partir o feixe. 
   – Não podes? – perguntou ele ao filho.
   – Não, meu pai, não posso.
   – E algum de vós é capaz de o partir? Experimentai.
   Não foi nenhum capaz de o partir, nem dois juntos, nem três, nem todos juntos. O pai disse-lhes então:
   – Meus filhos, o mais pequenino de vós partiu, sem lhe custar nada, todos os vimes, enquanto os partiu um por um; e o mais velho de vós não pode parti-los todos juntos; nem vós, todos juntos, fostes capazes de partir o feixe. Pois bem, lembrai-vos disto e do que vos vou dizer: enquanto vós todos estiverdes unidos, como irmãos que sois, ninguém zombará de vós, nem vos fará mal, ou vencerá. Mas logo que vos separeis, ou reine entre vós a desunião, facilmente sereis vencidos. 
   Acabou de dizer isto e morreu – e os filhos foram muito felizes, porque viveram sempre em boa irmandade ajudando-se sempre uns aos outros; e como não houve forças que os desunissem, também nunca houve forças que os vencessem.


Trindade Coelho, Os Meus Amores

27 de agosto de 2013

Eu tenho um sonho

"I Have a Dream" foi a frase do discurso de Luther King, proferido na Marcha de Washington por Empregos e Liberdade, a 28 de agosto de 1963, que marcou a história do movimento norte-americano pelos direitos civis. 

O discurso de King permanece uma referência no que se refere ao anseio por um mundo mais justo e tolerante. Expressa também, de modo admirável, a resistência pacífica, mas indómita, contra a discriminação e a opressão. 

Passaram 50 anos desde que esse memorável discurso foi proferido. Ouçamo-lo de novo:



7 de julho de 2013

Curiosidades pessoanas

Saiu o número 3 de Pessoa Plural, revista académica internacional dedicada a Fernando Pessoa e editada pelo Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros de Brown, pelo Centro de Estudos Portugueses da Universidade de Utrech e pelo Departamento de Humanidades e Literatura da Universidade dos Andes. 

Os artigos podem ser descarregados, ou a revista lida online, aqui.

Do índice, destacamos dois artigos, pela novidade que trazem:

  • Um ensaio sobre a presença de elementos islâmicos em textos inéditos de Pessoa. 
  • E ainda, partindo da análise de um pequeno poema de Fernando Pessoa, no qual  o escritor reage a uma acusação de plágio relacionada com alguns versos do seu famoso "Mar Português", um outro artigo que situa cronologicamente o caso, revela a origem da acusação e enquadra historicamente o episódio, sublinhando o simbolismo político de que se revestiu. 
Eis o poema em que Fernando Pessoa reage ironicamente à acusação:


Eu falei no “mar salgado”,
Disseram que era plagiado 
Do Correia de Oliveira.
Ora, plagiei-o do mar.
Eu sou tal qual Portugal
Faz-me sempre mal o sal
E ando sobretudo com azar. 

30 de junho de 2013

Outra sugestão para as férias

D. João V, o  perdulário rei-sol português que os alunos do 12º Ano bem conhecem da leitura de Memorial do Convento, terá sido mais do que a caricatura que Saramago nos oferece no seu romance? 

Até 29 de Setembro, o Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, tem patente uma mostra acerca da Encomenda Prodigiosa que este rei fez a Itália para erguer em Lisboa uma extraordinária réplica do Vaticano, centrada na Basílica da Patriarcal de Lisboa.

Da página do Museu:

A esplendorosa Basílica Patriarcal de Lisboa era celebrada por toda a Europa. Cenário único, onde se levava a efeito uma surpreendente emulação da corte pontifícia, entendida como elemento de prestígio da própria corte portuguesa, tornou-se numa das mais dramáticas perdas geradas pelo Terramoto de 1755. Possuía uma extensão, felizmente poupada pelo sismo: a Capela de São João Batista, também encomendada por D. João V com o respetivo tesouro e edificada na Igreja de São Roque.

Evocar essa encomenda e o caminho que conduz da Patriarcal à Capela Real de São João Batista, exumando fontes e vestígios que o tempo parece ter querido apagar, é o objetivo desta exposição, dividida entre o MNAA-Museu Nacional de Arte Antiga e a Igreja e Museu de São Roque.

O jornal i, destaca, em artigo do dia 29 de Junho:

Transportada de Itália, montada peça por peça segundo uma intricada operação logística, a sumptuosa Capela de S. João Baptista (...) um prodígio da arte, ao nível do Rei-Sol português, e um instrumento político tão valioso como os materiais convocados para a obra. O projecto mostrava às potências europeias com acreditação diplomática no coração da Europa do século XVIII, que Portugal dispunha de capacidade financeira para proteger o seu império.


"O rei falava de igual para igual com Roma. Este momento marca uma transição sem paralelo. Criámos uma estética portuguesa com uma variante portuguesa da grande estética global do barroco cosmopolita. É uma situação de um Portugal na Europa e não de um Portugal além-mar, como nos Descobrimentos", explica António Filipe Pimentel, perito na era joanina, comissário científico desta mostra, a par de Teresa Vale, e director do Museu Nacional de Arte Antiga, que aloja o primeiro pólo da exposição, que se estende agora à Igreja Museu de São Roque. Ambas se prolongam até 29 de Setembro, apresentando no seu total mais de 300 peças.

"A capela não é um mero produto de importação a Roma, expressa muito o que era a vontade portuguesa. Na fase do projecto de arquitectura, o arquitecto ao serviço do rei chega a recusar os projectos enviados pelos melhores arquitectos italianos da altura. O rei queria uma arte que expressasse poder."


A exposição "A Encomenda Prodigiosa - da Patriarcal à Capela Real de S. João Baptista" reúne ainda em S. Roque centena e meia de peças do período barroco da arte italiana. Vindas de todo o país e de museus internacionais, algumas das obras vão poder ser vistas pela primeira vez em Portugal. 

24 de junho de 2013

Agustina Bessa-Luís

«... talvez uma das maiores escritoras em língua portuguesa» - dizem os estudiosos da nossa literatura, no Brasil.

Aqui fica justamente a ligação para um vídeo da Globo, sobre Agustina. De quem, infelizmente, pouco ouvimos falar em Portugal nos últimos tempos. Ouçamos então o que nos dizem os leitores do lado de lá do Atlântico.

E deixamos também o desafio: porque não ler um romance da escritora, nestas férias?




21 de junho de 2013

Ainda Blimunda

Blimunda é ao mesmo tempo uma figura de vitral e uma criatura humaníssima e inesquecível. Sonhando-a e sonhando-se nela, José Saramago criou uma insólita figura da nossa ficção, uma das raras presenças míticas do imaginário contemporâneo. Excluída e predestinada para a salvação do homem, Blimunda é uma Eva sem pecado, a natural companhia e companheira da sua aventura obstinada em converter a Terra à sua vocação paradisíaca. Através dela retoma Saramago o mito de Orfeu às avessas: é Eurídice que desce aos infernos para resgatar as almas, é ela que não pode voltar-se quando investida na sua missão para que Baltasar não se sinta privado da sua força de homem, da sua vontade e do seu espírito. 

Ela conhece o mistério de Baltasar, podia apoderar-se dele se quisesse, mas o seu amor mantém-no na ilusão da sua masculina opacidade. Só se servirá desse poder para subtrair Baltasar ao seu destino de condenado, arrancando-o da fogueira para o sepultar no seu próprio coração. 

A heroína do Memorial não é uma personagem trágica, embora esteja envolta em acontecimentos que a dilaceram e a obrigam a ser a Judite do seu povo maldito. Desde sempre ela está salva, ela é feiticeira e santa indistintamente. É a testemunha e a cúmplice da tragédia dos outros, de Bartolomeu de Gusmão e de Baltasar. Do primeiro, guardará o sonho de voar tornando-se ela mesma a Voadora, do segundo a vida toda, roubando-o à morte. 

Ser silencioso, para ela vão todas as complacências do seu criador, por ela se interrompe ou distrai a evocação das cruezas, abusos, escândalos humanos e divinos de quem pode e manda nesse Portugal de sol menos ardente que as suas superstições, deixando espraiar-se o canto profundo, a torrente lírica que esse silêncio recobre.

Eduardo Lourenço, In libreto da ópera Blimunda, Teatro Nacional de São Carlos, 1991


Uma explicação:

Em 1991, o Teatro Nacional de São Carlos levava à cena «Blimunda», ópera lírica em três actos, do compositor italiano Azio Corghi, inspirada no Memorial do Convento. Como pode ler-se na Revista de Artes e Letras Lusófonas, do Instituto Camões, Saramago era o autor português mais conhecido em Itália, depois de Pessoa. Refere o artigo a existência de um grupo de intelectuais italianos que promovia encontros em torno de Saramago e da sua obra. Foi num destes encontros que o escritor conheceu o compositor Arzio Corghi, o qual lhe confessou o seu desejo de contar a história, inspirada na atmosfera do Memorial, de um Orfeu no feminino. A resposta de Saramago baptizaria a ópera: «Chamá-la-emos Blimunda». O espectáculo, que estreou no prestigiado Teatro Lírico de Milão, percorreu os principais teatros líricos da Europa.


20 de junho de 2013

Blimunda: porquê este nome?

Muitas vezes me perguntei: porquê este nome? Recordo-me de como o encontrei, percorrendo com um dedo minucioso, linha a linha, as colunas de um vocabulário onomástico (…)

Nunca, em toda a minha vida, nestes quantos milhares de dias e horas somados, me encontrara com o nome de Blimunda, nenhuma mulher em Portugal, que eu saiba, se chama hoje assim. E tão-pouco é verificável a hipótese de tratar-se de um apelativo que em tempos tivesse merecido o favor das famílias e depois caísse em desuso: nenhuma personagem feminina da História do meu país, nenhuma heroína de romance ou figura secundária levou alguma vez tal nome, nunca estas três sílabas foram pronunciadas à beira duma pia baptismal ou inscritas nos arquivos do registo civil. Também nenhum poeta, tendo de inventar para a mulher amada um nome secreto, se atreveu a chamar-lhe Blimunda. 

Tentando, nesta ocasião, destrinçar aceitavelmente as razões finais da escolha que fiz, seria uma primeira razão a de ter procurado um nome estranho e raro para dá-lo a uma personagem que é, em si mesma, estranha e rara. De facto, essa mulher a quem chamei Blimunda, a par dos poderes mágicos que transporta consigo e que por si sós a separam do seu mundo, está constituída, enquanto pessoa configurada por uma personagem, de maneira tal que a tornaria inviável, não apenas no distante século XVIII em que a pus a viver, mas também no nosso próprio tempo.

Ao ilogismo da personagem teria de corresponder, necessariamente, o próprio ilogismo do nome que lhe ia ser dado. Blimunda não tinha outro recurso que chamar-se Blimunda. Ou talvez não seja apenas assim. Regressando ao vocabulário, e mesmo sem recair em excessos de minúcia, posso observar como abundam os nomes de pessoa extraordinários e extravagantes, que ninguém hoje quereria usar e antes só excepcionalmente, e contudo não foi a nenhum deles que escolhi: rareza e estranheza não seriam, afinal, condições suficientes. 

Que outra condição, então, que razão profunda, porventura sem relação com o sentido inteligível das palavras, me terá levado a eleger esse nome entre tantos? Creio que sei hoje a resposta, que ela me acaba de ser apontada por esse outro misterioso caminho que terá levado Azio Corghi a denominar Blimunda uma ópera extraída de um romance que tem por título Memorial do Convento: essa resposta, essa razão, acaso a mais secreta de todas, chama-se Música. Terá sido, imagino, aquele som desgarrador de violoncelo que habita o nome de Blimunda, profundo e longo, como se na própria alma humana se produzisse e manifestasse, que me levou, sem nenhuma resistência, com a humildade de quem aceita um dom de que não se sente merecedor, a recolhê-lo, num simples livro, à espera, sem o saber, de que a Música viesse recolher o que é sua exclusiva pertença: essa vibração última que está contida em todas as palavras e em algumas magnificamente.


Saramago, in libreto da ópera Blimunda, Teatro Nacional de São Carlos, 1991

19 de junho de 2013

Cadernos ECB

O número VI da revista científico-pedagógica da nossa escola já foi lançado e pode ser lido aqui.

18 de junho de 2013

Terceiro aniversário da morte de Saramago



Lembrando Saramago - e em celebração da sua liberdade de pensamento - algumas frases do escritor, retiradas de entrevistas, declarações e artigos na comunicação social. Todas foram recolhidas no site do Citador:
  • "Qualquer idade é boa para aprender. Muito do que sei aprendi-o já na idade madura e hoje, com 86 anos, continuo a aprender com o mesmo apetite.
  • "Se não me interessar pelo mundo, este baterá à minha porta pedindo-me contas."
  • "Sabemos muito mais do que julgamos, podemos muito mais do que imaginamos."
  • "Só o amor nos permite conhecermo-nos."
  • "Sente-se uma insatisfação, sobretudo dos jovens, perante um mundo que já não oferece nada, só vende!"
  • "A única revolução realmente digna de tal nome seria a revolução da paz, aquela que transformaria o homem treinado para a guerra em homem educado para a paz porque pela paz haveria sido educado. Essa, sim, seria a grande revolução mental, e portanto cultural, da Humanidade. Esse seria, finalmente, o tão falado homem novo."
  • "Nem a arte nem a literatura têm de nos dar lições de moral. Somos nós que temos de nos salvar, e isso só é possível com uma postura de cidadania ética, ainda que isto possa soar antigo e anacrónico."
  • "A História é tão pródiga, tão generosa, que não só nos dá excelentes lições sobre a actualidade de certos acontecidos outrora como também nos lega, para governo nosso, umas quantas palavras, umas quantas frases que, por esta ou aquela razão, viriam a ganhar raízes na memória dos povos."

Deixamos também a ligação a partir da qual se pode descarregar a Blimunda 13, revista da Fundação Saramago. 


13 de junho de 2013

Fernando António Pessoa

Evocamos hoje Fernando Pessoa, cujo nascimento ocorreu a 13 de Junho, dia de Santo António  e por isso Fernando António. Ao poeta desejamos longa, feliz fortuna

E aconselhamos este excelente documentário em que intervêm estudiosos, investigadores e apaixonados da obra pessoana, mas também familiares, como a sobrinha que evoca um tio brincalhão e alegre que nos custa imaginar como o poeta  de "A minha vida é um barco abandonado" ou de "Aniversário". 

O documentário desmistifica mitos e ideias feitas cujo crescimento e divulgação a internet veio infelizmente exponenciar;  e acrescenta informações deveras interessantes e menos conhecidas, por exemplo acerca da criação dos heterónimos e de algumas circunstâncias da vida  de Pessoa. Vale a pena ver: