17 de março de 2014

Humanismo e universalismo d'Os Lusíadas

     
A vertente humanista e universalista d’Os Lusíadas está presente na fé depositada nas capacidades do Homem para superar os seus limites. Apesar de ser um louvor centrado nos portugueses, a epopeia de Camões enaltece o ser humano em geral e a sua capacidade de se transcender.

De facto, o Poeta propõe um modelo de herói – o Homem perfeito, aquele que reúne qualidades como a coragem física e que supera as adversidades que enfrenta. Mas o poeta realça que não são apenas força, coragem e espírito de sacrifício que fazem o herói, pois os padrões éticos, o amor ao bem comum, o conhecimento e a cultura têm um papel importantíssimo no que toca a alcançar um nível superior de humanidade.

Assim, ao longo da epopeia, nas considerações que tece, Camões ensina-nos a tornarmo-nos mais humanos. É o caso do Canto VI, em que aponta o que não devemos fazer nem ser. Não devemos, por exemplo, aproveitar-nos dos feitos de outros, pois a fama e a glória só são válidas se formos nós a conquistá-las, humildemente. Com efeito, não são os que nascem socialmente privilegiados que se consagram heróis, mas sim aqueles que lutam e que, apesar de todas as adversidades, nunca desistem.

Também no canto V o Poeta nos apresenta a sua ideologia de herói. Um herói tem de ser culto, interessar-sepelas artes e pela literatura – quebrar limites geográficos não basta, o Homem necessita de alargar também a dimensão cultural.

Em suma, a visão humanista e universal do Homem está bem presente n’ Os Lusíadas. Camões pretende que não só o rei D. Sebastião (a quem dedicou a epopeia), mas todos os homens da sua época e de épocas futuras se tornem maiores, mais humanos.
Inês Penas, 12º A

14 de março de 2014

A importância das palavras

Desde que o Homem aprendeu a comunicar, a evolução da humanidade acelerou de forma exponencial. Hoje, em tempos de crise e de guerra, a palavra é uma das armas mais fortes a serem usadas, uma vez que tanto pode conduzir à libertação, como à opressão.

A Torre de Babel, pintura de Pieter Brueghel
O mundo sempre estará em conflito, enquanto houver ambição (algo que é inerente à condição humana). No entanto, tal como o dito popular nos diz, “a conversar é que se resolvem os problemas”. Assim, em tempos de guerra e de crise, a palavra pode salvar muitas vidas e poupar muitas mortes. Se repararmos no caso da luta contra o racismo, Martin Luther King, através do seu discurso “I have a dream”, mobilizou quase todo um planeta, utilizando apenas a “força da palavra”. E, o que é facto, é que isso possibilitou a vida em liberdade de muito mais pessoas de raça negra.

Por outro lado, a palavra pode ser usada, não como arma, mas como testemunho ou ensinamento. Este uso da palavra influencia e acelera bastante a evolução da espécie humana. Deste modo, os conhecimentos de hoje podem passar para as gerações de amanhã e, quem sabe, estas façam grandes descobertas que mudem a própria essência do Homem e da vida. Sabe-se, por exemplo, que muito do conhecimento atual – os fundamentos da matemática, por exemplo – vem dos antigos, sejam egípcios, romanos ou fenícios, e que nos chegaram através de livros ou pergaminhos (e mesmo escritos em pedra) e aliás, são esta palavras que nos permitem compreender a nossa própria história.

Em suma, a palavra é um dos elementos mais importantes da nossa vida (e espécie). Permitiu-nos chegar onde estamos e ao que somos hoje, sendo também a nossa esperança para o futuro.

José Mateus, 12º B 

6 de março de 2014

Erros meus, má fortuna, amor ardente

Pintura de George Tooker
Hoje levanto-me e sigo.

Como custa acordar para uma realidade que não queremos aceitar. Um arrepio, uma brisa amarga e fria percorre o meu ser, o meu corpo material e imaterial, deixa-os ambos estáticos, despovoados, vazios de si. E lembra-me, recorda-me, faz questão de me sussurrar aqueles encantos queridos que me fizeram cair incessantemente, outrora. Ilusões, doces ilusões. Uma vida inteira. Uma fantasia errante farta de sentimentos demasiado puros, demasiado reais.

Fui forçada a dançar este vento tanta vez, sei-o de cor, conheço os seus impulsos e as suas tentações, quando me acaricia, quando me consome e me projeta contra as infindas paredes da sua alma. Encontra sempre forma de me magoar. E eu ergo os meus braços novamente, para que se una a mim, para que eu abrace uma dor e tortura necessárias. E o fado repete-se, o meu corpo enfraquecido procurando a afeição ingrata daquele que me sorve as forças, do meu amor ardente.

Erros meus. Nem a minha agonia me move. Que agradável martírio este. Nunca conheci outra forma, dou-me porque nada mais tenho para oferecer. Erro meu. Dou por mim a ensaiar os mesmos movimentos erráticos, volto a ouvir a melodia melosa que acompanha a minha cegueira e obedeço-lhe como um corpo amestrado que reage a um impulso. Forço-me a cair, mas desta vez, já não há vento que me receba. Deixo-me ficar. Estática, vazia, inconsciente da minha dor. Sinto o peso do meu corpo a ser comprimido contra o chão húmido e glaciar.

Mas não. Ele é apenas leve e frágil, suavemente pousado sobre as areias finas e translúcidas da minha inocência. Eu apenas me deixei ficar, deixei-me sempre ficar. Mas hoje, não. Hoje, levanto-me e sigo.

Carolina Couto, 10ºE 

5 de março de 2014

Arte? Nós somos de Ciências

Não é usual turmas de Ciências visitarem exposições de arte e museus, os alunos são demasiado objetivos para se submeterem a situações em que lhes é pedida alguma subjetividade. Mas nós somos diferentes e, por isso mesmo, decidimos passar uma manhã 100% cultural na Fundação Calouste Gulbenkian.
Primeiramente, detivemo-nos no museu propriamente dito, onde conhecemos as obras mais significativas da coleção Gulbenkian, fazendo a famosa “Volta ao mundo em dez obras de arte”. Pela sua diversidade, as peças permitiram-nos seguir a evolução da arte que, ao longo dos tempos, acompanhou, em grande medida, a evolução dos povos e das suas formas de pensamento. Da arte egípcia, que refletia intensamente a crença na vida depois da morte, passámos à greco-romana, representada essencialmente por moedas e medalhões gregos. Daí, fomos observar tapetes e tecidos típicos da arte islâmica e as porcelanas do Extremo Oriente, principalmente de origem chinesa e japonesa. Passámos os olhos pelos trabalhosos manuscritos da Idade Média e chegámos ao Renascimento, com os seus retratos que tanto fazem lembrar as “fotos de passe” de hoje em dia. Como não poderia deixar de ser, terminámos em grande, com as extravagâncias do Barroco e do Rococó, nas quais nada mais se respirava senão ostentação e luxo.

Após esta viagem, o Centro de Arte Moderna pareceu-nos o melhor destino a seguir, com uma exposição de título sugestivo: “Isto é arte? É arte! É arte! É arte!”. Depois da lição de história de arte, tivemos, então, a oportunidade de contactar com obras contemporâneas, em toda a sua irreverência e multiplicidade de formas, as quais deixam ao observador margem para interpretação e subjetividade, exatamente aquilo que nós, aspirantes a cientistas, tanto tememos. 


Começámos pela coleção “Preso por fios”, de Nadia Kaabi-Linke, que nos pareceu ter um caráter profundamente pedagógico, uma vez que, através de instalações e pinturas, facilmente nos sensibilizou para questões sociais associadas a aflitivos conflitos entre povos e religiões. Passámos, então, ao escultor Rui Chafes, com “O peso do paraíso”, uma coleção metálica, negra e dolorosa, que vivia em grande medida do poder dos opostos: a terra e o céu, o real e o sonho, o grande e o pequeno… Acabámos com fotografia, a exposição “Narrativa Interior”, de João Tabarra, na qual o artista expressa a sua posição crítica relativamente à atualidade, com o intuito de nos persuadir a fazer o mesmo, de modo a tornarmos o mundo num lugar menos inóspito.

Rui Chafes, O peso do paraíso
João Tabarra, A Viagem

Em suma, pode dizer-se que, apesar de diferente, a visita fez despertar o nosso lado mais interpretativo, na medida em que nos obrigou a pensar para além do visível, do óbvio. De facto, as obras de arte contemporânea podiam parecer, aparentemente, vazias de significado, no entanto, refletindo um pouco, tudo nelas se tornava claro e expressivo. Nessa reflexão tivemos de aguçar o nosso espírito crítico que, no fundo, é aquilo que temos de mais precioso.

Como Turgueniev afirmou: "A arte de um povo é a sua alma viva, o seu pensamento, a sua língua no significado mais alto da palavra; quando atinge a sua expressão plena, torna-se património de toda a humanidade, quase mais do que a ciência, justamente porque a arte é a alma falante e pensante do homem, e a alma não morre, mas sobrevive à existência física do corpo e do povo."


Alice Vicente, 12ºB 

24 de fevereiro de 2014

Canção IX

A Canção IX, de Camões, dita por Luís Miguel Cintra com uma sobriedade exemplar que torna ainda mais comovente este poema ímpar.



Canção IX

Junto de um seco, fero e estéril monte,
inútil e despido, calvo, informe,
da natureza em tudo aborrecido;
onde nem ave voa, ou fera dorme,
nem rio claro corre, ou ferve fonte,
nem verde ramo faz doce ruído;
cujo nome, do vulgo introduzido
é felix, por antífrase, infelice;
o qual a Natureza
situou junto à parte
onde um braço de mar alto reparte
Abássia, da arábica aspereza,
onde fundada já foi Berenice,
ficando a parte donde
o sol que nele ferve se lhe esconde;

nele aparece o Cabo com que a costa
africana, que vem do Austro correndo,
limite faz, Arómata chamado
(Arómata outro tempo, que, volvendo
os céus, a ruda língua mal composta,
dos próprios outro nome lhe tem dado).
Aqui, no mar, que quer apressurado
entrar pela garganta deste braço,
me trouxe um tempo e teve
minha fera ventura.
Aqui, nesta remota, áspera e dura
parte do mundo, quis que a vida breve
também de si deixasse um breve espaço,
porque ficasse a vida
pelo mundo em pedaços repartida.

Aqui me achei gastando uns tristes dias,
tristes, forçados, maus e solitários,
trabalhosos, de dor e d'ira cheios,
não tendo tão somente por contrários
a vida, o sol ardente e águas frias,
os ares grossos, férvidos e feios,
mas os meus pensamentos, que são meios
para enganar a própria natureza,
também vi contra mi
trazendo-me à memória
algüa já passada e breve glória,
que eu já no mundo vi, quando vivi,
por me dobrar dos males a aspereza,
por me mostrar que havia
no mundo muitas horas de alegria.

Aqui estiv'eu co estes pensamentos
gastando o tempo e a vida; os quais tão alto
me subiam nas asas, que cala
(e vede se seria leve o salto!)
de sonhados e vãos contentamentos
em desesperação de ver um dia.
Aqui o imaginar se convertia
num súbito chorar, e nuns suspiros
que rompiam os ares.
Aqui, a alma cativa,
chagada toda, estava em carne viva,
de dores rodeada e de pesares,
desamparada e descoberta aos tiros
da soberba Fortuna;
soberba, inexorável e importuna.

Não tinha parte donde se deitasse,
nem esperança algüa onde a cabeça
um pouco reclinasse, por descanso.
Todo lhe he dor e causa que padeça,
mas que pereça não, porque passasse
o que quis o Destino nunca manso.
Oh! que este irado mar, gritando, amanso!
Estes ventos da voz importunados,
parece que se enfreiam!
Somente o Céu severo,
as Estrelas e o Fado sempre fero,
com meu perpétuo dano se recreiam,
mostrando-se potentes e indignados
contra um corpo terreno,
bicho da terra vil e tão pequeno.

Se de tantos trabalhos só tirasse
saber inda por certo que algu'hora
lembrava a uns claros olhos que já vi;
e se esta triste voz, rompendo fora,
as orelhas angélicas tocasse
daquela em cujo riso já vivi;
a qual, tornada um pouco sobre si,
revolvendo na mente pressurosa
os tempos já passados
de meus doces errores,
de meus suaves males e furores,
por ela padecidos e buscados,
tornada (inda que tarde) piadosa,
um pouco lhe pesasse
e consigo por dura se julgasse;

isto só que soubesse, me seria
descanso para a vida que me fica;
co isto afagaria o sofrimento.
Ah! Senhora, Senhora, que tão rica
estais, que cá tão longe, de alegria,
me sustentais cum doce fingimento!
Em vos afigurando o pensamento,
foge todo o trabalho e toda a pena.
Só com vossas lembranças
me acho seguro e forte
contra o rosto feroz da fera Morte,
e logo se me ajuntam esperanças
com que a fronte, tornada mais serena,
torna os tormentos graves
em saudades brandas e suaves.

Aqui co elas fico, perguntando
aos ventos amorosos, que respiram
da parte donde estais, por vós, Senhora;
às aves que ali voam, se vos viram,
que fazíeis, que estáveis praticando,
onde, como, com quem, que dia e que hora.
Ali a vida cansada, que melhora,
toma novos espritos , com que vença
a Fortuna e Trabalho,
só por tornar a vervos ,
só por ir a servir-vos e querer-vos.
Diz-me o Tempo, que a tudo dará talho;
mas o Desejo ardente, que detença
nunca sofreu, sem tento
m'abre as chagas de novo ao sofrimento.

Assi vivo; e se alguém te perguntasse,
Canção, como não mouro,
podes-lhe responder que porque mouro.


20 de fevereiro de 2014

Erros meus, má fortuna, amor ardente

Pintura de Matisse, 1916
Torna-se difícil suportar o que sinto. Todos os erros cometidos pairam sobre mim como uma nuvem escura e pesada que me atormenta. Ainda assim a vontade permanece, tal como o desejo, o querer inalcançável, a saudade incessante e esse amor ardente que se entranha na alma sem porta de saída.

Sentir que o tenho, e que o perco a cada dia que passa. O que predomina em mim é algo absolutamente inexplicável. Sinto-me desgastada, derrubada, mas ainda assim o desejo mantém-se. Torna-se intolerável toda esta dor, angústia, ímpeto. A vontade de encontrar a felicidade dissipa-se a cada dia um pouco mais, deixando apenas a tristeza como garantida. Deixo-me a cada dia que passa ser perseguida pelos seus encantos e desencantos, ainda que sejam eles o berço deste sentimento infinito, irmão da angústia e inimigo da felicidade.

A esperança esvai-se, o medo surge e a desilusão subsiste, como aquela nuvem escura e pesada, fazendo, assim, dos erros passados a melancolia do presente. Quero poder disfrutar ao teu lado de tudo o que a vida tem, porque só assim continuarei viva. Até lá, aguardo aqui sentada, com o coração palpitante, as mãos suadas e os olhos brilhantes. Porque, para sempre, permanecerá em mim a ânsia do que fomos e não fomos.

Marina Ramos Santos, 10ºE

12 de fevereiro de 2014

Ondas do mar de Vigo

O Joel Vicente, do 12º B, escreveu esta música para um poema de Martin Codax, "Ondas do mar de Vigo". Tratava-se de um trabalho do Conservatório, onde frequenta o curso de piano. O poema foi sugerido na aula de Português. 

Explicou-nos ele que o objectivo do trabalho era compor uma música trovadoresca, pelo que se impunha "uma estrutura repetitiva e um acompanhamento musical rudimentar, tudo muito constante e fluido". 

Aqui fica então a música, delicada e bela. E a pauta, com a composição original do Joel.






10 de fevereiro de 2014

Abriste-me os olhos

Yajuro Takashima, Mangetsu, 1963

Uma seta de escuridão
Atingiu a minha vida.
Apoderou-se de mim a solidão
E a tristeza há muito escondida.

Dentro de mim me perdi,
À procura da saída.
De tanto falar desisti,
Dei a luta como perdida.

Vivo com medo de me afogar
No mar de dor onde vivo
Que, apesar de implorar,
Não se mostrava compreensivo.

Foi então que mergulhei
No poço sem fundo da minha mente;
Cansado de resistir, parei,
Adormeci completamente.

O intenso brilho
Dos teus olhos me acordou.
E até ti segui o trilho
Que o meu coração traçou.



Gabriel Branco, 9ºA

6 de fevereiro de 2014

Ciclo História da Língua Portuguesa

CICLO HISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUESA 

Um ciclo de cinco conferências a que bem gostaríamos de assistir. No Centro Cultural de Belém, entre 13 de Fevereiro e 13 de Março, pelo professor Ivo de Castro. 

Do programa constam palestras tão atraentes como as que destacamos:

Quantos anos terá a língua portuguesa? - A origem da língua portuguesa não pode ser datada com precisão. Os mais antigos documentos conhecidos são do tempo de Afonso Henriques, mas a língua começou a ser falada bastante mais cedo.

Narrativas medievais - Um dos primeiros documentos portugueses pode ser lido como uma narrativa de aventuras. Mas, primeiro, há que lê-lo.

História do futuro - E agora, português?



5 de fevereiro de 2014

Passarox, de Castro Guedes - a peça que os Gambuzinos andam a tecer

Quem não se lembra de Adolf Hitler, “o tirano”?… E quem se lembra de Adolf Hitler, “o eleito democraticamente”?  O homem que queria ser pintor tornou-se desenhador da morte, da mesma forma que o homem que queria ser cozinheiro se tornou manipulador de alimentos: as aves. Sem asas para alcançar o céu e sem interesses comuns aos anjos, o “Mestre” serviu-se das asas de cada tipo de ave, correspondente a cada tipo de homem: o homem abutre, o papagaio, o cérebro-de-galinha, o avestruz, (que não quer encarar os próprios problemas), o sábio mocho, o futurista falcão…

Passarox é a terra em que as aves se deixam ouvir. Vivem numa hierarquizada civilização que equivaleria a uma monarquia democrática: a águia, majestosa ave soberana, “símbolo de todos os impérios”; as aves predadoras, como o falcão e o milhafre; e a plebe. 


Também os homens acreditam viver democraticamente, esquecendo que a democracia é um império erguido pelos faraós do tempo, e que, tal como o império romano, se não for mantido… rui. Castro Guedes reparou que a democracia tem sido corroída pelos vícios sociais e pela corrupção e decidiu “acordar” o mundo. 


E se ridendo castigat mores, tal como Vieira se serviu dos peixes, Guedes serve-se dos seres alados para atingir a humanidade que, com o seu cérebro de galinha, está suscetível ao ataque de qualquer galo.


Beatriz Lourenço, 11º E

22 de janeiro de 2014

Alcobaça, a casa de Pedro e Inês

O portal Ensina é uma plataforma educativa organizada pela RTP para tornar acessíveis, aos alunos e professores do ensino básico e secundário, programas da rádio e da televisão com interesse educativo.

Aqui fica a ligação para um desses conteúdosAlcobaça, a casa de Pedro e Inês

20 de janeiro de 2014

100 anos de Platero



Saíu hoje o número 20 da revista Blimunda, da Fundação Saramago, que pode descarregar-se aqui.

Neste número, destacamos um trabalho acerca de Platero e eu, o delicioso livrinho de Juan Ramon Jiménez, sobre cuja publicação se cumprem 100 anos.

Nunca deixamos de recomendar a sua leitura aos nossos alunos, pois Platero e eu cumpre muitos dos requisitos que lhes agradam: é pequeno, é alegre e gira em torno de uma personagem que nos cativa o coração: o burrinho Platero, amigo e meio de transporte do autor, com quem este mantinha uma relação que mais facilmente imaginaríamos ter com um cão ou com um gato. 

Feliz centenário, Platero!

19 de janeiro de 2014

O poder da arte

De Bernini e Caravaggio a Van Gogh, Picasso, Rothko, passando por Rembrandt e outros, um conjunto de excelentes documentários da BBC, legendados em português, que nos conduzem numa viagem de descoberta e maravilhamento: as circunstâncias históricas, a vida dos artistas, a música do seu tempo em registo de fundo, e, especialmente, a explicação das obras, reveladas em imagens deslumbrantes e vivas, cheias de pormenores que raramente conseguimos descortinar nos museus ou em visitas não guiadas:


16 de janeiro de 2014

O Amor Cortês

Ficaram célebres as regras do amor cortês definidas no século XII por Lianor de Aquitânia. Lianor foi duquesa da Gasconha e da Aquitânia, Condessa de Poitiers e rainha consorte de França e Inglaterra. Era a filha mais velha de Guilherme X, a quem sucedeu em 1137. Fluente em cerca de oito línguas, aprendeu também matemática e astronomia, leis e filosofia. Esta educação, excepcional numa mulher e numa época em que a maior parte dos governantes eram analfabetos, permitiu-lhe desenvolver uma notável cultura. A sua fortuna pessoal e o seu apurado sentido político fizeram-na uma das mulheres mais poderosas e influentes da Idade Média.

























AS 31 REGRAS DO AMOR CORTÊS

definidas por Lianor de Aquitânia (séc. XII-XIII) e sua «corte do amor»

1.   O casamento não constitui desculpa legítima contra o amor.
2.   Ninguém deve ser proibido de amar.
3.   Ninguém pode ter duas ligações ao mesmo tempo.
4.   Um homem só pode amar quando é adulto.
5.   Quem não é ciumento não ama.
6.   O amor deve sempre diminuir ou aumentar.
7.   Os prazeres que o amante obtém sem consentimento da amada não têm sabor algum.
8.   Em amor, o amante que sobrevive à amada deve observar uma viuvez de dois anos.
9.   Ninguém pode amar a menos que a isso seja levado pela vontade do amor.
10. O amor não habita nunca na casa da avareza.
11. Não parece bem amar alguém com quem se tem vergonha de casar.
12. O verdadeiro amante não gosta de amar outrém para além do seu amado.
13. O amor raramente subsiste depois de divulgado.
14. O amor que se consegue facilmente despreza-se; o amor que se ganha tem-se em alta estima.
15. Todo o amante deve empalidecer à vista da sua amada.
16. O coração do verdadeiro amante treme aquando da aparição súbita do ser amado.
17. O novo amor faz esquecer o velho.
18. Só a honestidade nos faz dignos do amor.
19. Se o amor diminui, depressa acaba e raramente revive.
20. O verdadeiro amante é sempre tímido
21. O afecto do amante é sempre acrescentado pelo ciúme verdadeiro.
22. O afecto do amante é sempre aumentado pelo respeito da amada.
23. Aquele que o amor perturba come menos e dorme menos.
24. Todas as acções do amante estão ligadas ao pensamento da amada.
25. O verdadeiro amante só aprecia aquilo que ele pensa agradar ao ser amado.
26. O amor nada pode recusar ao amor.
27. O verdadeiro amante nunca se farta dos favores da amada.
28. É a presunção que leva o amante a suspeitar da amada.
29. Não deve amar aquele que é tentado pela luxúria.
30. O verdadeiro amante vive da contemplação ininterrupta da sua amada.
31. Nada proíbe que uma mulher seja amada por dois homens ou um homem por duas mulheres.

in A Moda - 5000 Anos de Elegância, Ed. Verbo


11 de janeiro de 2014

Uma péssima escolha

Diz Miguel Real no jornal Público, a propósito da substituição, nos novos programas de Português, do romance Memorial do Convento, de José Saramago, pelo Ano da Morte de Ricardo Reis, do mesmo autor. Ouçamo-lo, porque muitos de nós concordamos com ele e lamentamos esta decisão.
Verdadeiramente, do ponto de vista estético, nada há a opor à introdução de O Ano da Morte de Ricardo Reis (OAMRR) no futuro programa de Português do 12.º ano em substituição de Memorial do Convento (MC). É uma escolha estética de qualidade e garante a continuidade do escritor José Saramago nos livros de leitura obrigatória do ensino secundário.
Porém, do ponto de vista pedagógico, considerando as características literárias e sociais pertinentes a MC, o nível etário e o horizonte psicológico dos alunos do 12.º ano, adolescentes entre os 16 e os 17 anos, de fraca apetência cultural, bem como a comprovadíssima óptima recepção de MC por parte de estudantes e professores, não podemos deixar de considerar a alteração uma péssima escolha.
Academicamente, OAMRR tem sido um dos romances de Saramago mais privilegiados pelos professores universitários e pelos críticos literários, expresso nos inúmeros prémios recebidos. OAMRR, desenhando tanto uma intertextualidade profundamente original com a obra de Fernando Pessoa quanto criticando a mentalidade dominante deste autor, é considerado menos ideológico que MC, mais intelectualizado, mais literato, mais esteticamente conotativo e auto-referente. Por seu lado, MC, considerada uma narrativa mais ideológica, expressão estética relevante do que Saramago entendia por história de Portugal, firmada na luta de classes e na perfídia das elites dominantes, torna-se, de facto, do ponto de vista da representação social, um romance incomodativo – que professor negaria que D. João V e a sua risível corte não poderiam ser identificados, hoje, com a elite política e administrativa de Portugal?
Deixamos à consciência do leitor 10 pontos enunciadores de uma visão de harmonização pedagógica entre o conteúdo de MC e a idade mental dos alunos, incitadora de uma visão lírica da História em tempo de profundo cepticismo, quando a Literatura pode (e deve) ser também, para as idades em apreço, motivadora de encantamento poético, de optimismo existencial, de vontade de viver em dignidade, características constitutivas de MC.
1. - MC apresenta uma diferença entre a representação da história visível (presente nos manuais da disciplina de História) e a desconstrução da mesma, evidenciando uma profunda reinterpretação e reflexão sobre a sociedade, forçando a necessidade de inquirição do aluno sobre um outro sentido para a História;
2. - MC é um dos romances de Saramago em que se colocam com maior e melhor nitidez a questão da nova complexidade do estatuto do narrador, elemento de profunda originalidade da obra deste escritor;

3. - MC é atravessado, como referimos, por uma onda de lirismo como dificilmente encontra paralelo no romance português contemporâneo, lirismo profundamente harmónico com a mente adolescente dos alunos, para a qual a entrega à Arte (Scarlatti), à Ciência (Bartolomeu de Gusmão) e ao Maravilhoso (Blimunda) são alternativas credíveis na opção pelo sentido de vida;

4. - MC ostenta uma galeria de personagens maravilhosas, singularmente diferentes da normalidade social, que encanta a mentalidade adolescente, criando-lhe um optimismo existencial, uma vontade de enfrentar a vida como raramente se encontra no romance português;

5. - MC caracteriza na figura de D. João V e dos seus áulicos alguns dos males éticos de que padece a permanente elite portuguesa: a ostentação, a vaidade, o excesso, a ambição tola por imitação de modas estrangeiras, a indiferença para com o sofrimento das populações, a antiga repressão sobre a sexualidade do corpo feminino;

6. - MC denuncia, em estilo irónico, sarcástico, até jocoso, estilo que se conforma com a mentalidade adolescente, atraindo-a, o contexto sócio-político megalómano dos costumes cortesãos do século XVIII e a mentalidade interesseira da corte, obviando a evidentes paralelismos com a actualidade;
7. - MC expõe uma amplidão lexical como raramente se assiste no actual romance português, cruzando vocabulário erudito com popular, histórico com presente, abrindo um novo horizonte no domínio plástico da língua aos alunos;
8. - MC enfatiza a necessidade de transgressão social para que a História avance, enaltecendo a capacidade de acção comandada pelo sonho, pelo visionarismo, pela vontade de criação de um futuro diferente;
9. - MC lega uma mensagem implícita, que repercute inconscientemente na mente dos alunos: a necessidade de cada um construir a sua "passarola", de possuir o seu "sonho" e a necessidade de ser diferente dos restantes para o cumprir;
10. - Finalmente, por todos estes motivos, MC é um dos raros textos da literatura portuguesa que interpenetra de um modo admirável Vida e Literatura, Arte e Cidadania, Existência e Reflexão, não raro reconciliando os estudantes com o estudo da Língua e da História.
Dir-me-ão que, oposto ao presente, poder-se-ia criar um texto com 10 características relevantes de OAMRR que de igual modo o qualificariam como uma narrativa de grande qualidade literária, não inferior a MC. É verdade. Eu próprio o fiz. E, por isso, iniciei este artigo referindo que nada havia a opor à integração de OAMRR nas obras de leitura obrigatória do 12.º ano (único problema, externo ao romance, consistiria numa porventura exagerada presença de Fernando Pessoa no novo programa do 12.º ano, mas, reconheço, também este argumento é subjectivo).
Se estética e literariamente é verdade que entre ambos a qualidade é semelhante, a substituição de MC por OAMRR revelar-se-á, pedagogicamente, uma péssima escolha, uma escolha feita de professores sensíveis à literatura para professores sensíveis à literatura, mas, lamentavelmente, insensíveis à expressão pedagógica da literatura em mentes adolescentes. Porém, como desde a década de 1960 se sabe, a literatura também é recepção, e, falhada esta, um belíssimo texto, de grande profundidade estética, pode tornar-se uma leitura verdadeiramente fastidiosa no interior da sala de aula, sem consequências activas e futurantes na vida de alunos adolescentes.
Proposta: não seria pedagogicamente mais razoável permitir uma escolha livre, em alternativa, entre os dois romances? É mesmo obrigatório, para fazer brilhar OAMRR, eliminar Memorial do Convento?
MIGUEL REAL, O Público, 10/01/2014