20 de junho de 2013

Blimunda: porquê este nome?

Muitas vezes me perguntei: porquê este nome? Recordo-me de como o encontrei, percorrendo com um dedo minucioso, linha a linha, as colunas de um vocabulário onomástico (…)

Nunca, em toda a minha vida, nestes quantos milhares de dias e horas somados, me encontrara com o nome de Blimunda, nenhuma mulher em Portugal, que eu saiba, se chama hoje assim. E tão-pouco é verificável a hipótese de tratar-se de um apelativo que em tempos tivesse merecido o favor das famílias e depois caísse em desuso: nenhuma personagem feminina da História do meu país, nenhuma heroína de romance ou figura secundária levou alguma vez tal nome, nunca estas três sílabas foram pronunciadas à beira duma pia baptismal ou inscritas nos arquivos do registo civil. Também nenhum poeta, tendo de inventar para a mulher amada um nome secreto, se atreveu a chamar-lhe Blimunda. 

Tentando, nesta ocasião, destrinçar aceitavelmente as razões finais da escolha que fiz, seria uma primeira razão a de ter procurado um nome estranho e raro para dá-lo a uma personagem que é, em si mesma, estranha e rara. De facto, essa mulher a quem chamei Blimunda, a par dos poderes mágicos que transporta consigo e que por si sós a separam do seu mundo, está constituída, enquanto pessoa configurada por uma personagem, de maneira tal que a tornaria inviável, não apenas no distante século XVIII em que a pus a viver, mas também no nosso próprio tempo.

Ao ilogismo da personagem teria de corresponder, necessariamente, o próprio ilogismo do nome que lhe ia ser dado. Blimunda não tinha outro recurso que chamar-se Blimunda. Ou talvez não seja apenas assim. Regressando ao vocabulário, e mesmo sem recair em excessos de minúcia, posso observar como abundam os nomes de pessoa extraordinários e extravagantes, que ninguém hoje quereria usar e antes só excepcionalmente, e contudo não foi a nenhum deles que escolhi: rareza e estranheza não seriam, afinal, condições suficientes. 

Que outra condição, então, que razão profunda, porventura sem relação com o sentido inteligível das palavras, me terá levado a eleger esse nome entre tantos? Creio que sei hoje a resposta, que ela me acaba de ser apontada por esse outro misterioso caminho que terá levado Azio Corghi a denominar Blimunda uma ópera extraída de um romance que tem por título Memorial do Convento: essa resposta, essa razão, acaso a mais secreta de todas, chama-se Música. Terá sido, imagino, aquele som desgarrador de violoncelo que habita o nome de Blimunda, profundo e longo, como se na própria alma humana se produzisse e manifestasse, que me levou, sem nenhuma resistência, com a humildade de quem aceita um dom de que não se sente merecedor, a recolhê-lo, num simples livro, à espera, sem o saber, de que a Música viesse recolher o que é sua exclusiva pertença: essa vibração última que está contida em todas as palavras e em algumas magnificamente.


Saramago, in libreto da ópera Blimunda, Teatro Nacional de São Carlos, 1991

19 de junho de 2013

Cadernos ECB

O número VI da revista científico-pedagógica da nossa escola já foi lançado e pode ser lido aqui.

18 de junho de 2013

Terceiro aniversário da morte de Saramago



Lembrando Saramago - e em celebração da sua liberdade de pensamento - algumas frases do escritor, retiradas de entrevistas, declarações e artigos na comunicação social. Todas foram recolhidas no site do Citador:
  • "Qualquer idade é boa para aprender. Muito do que sei aprendi-o já na idade madura e hoje, com 86 anos, continuo a aprender com o mesmo apetite.
  • "Se não me interessar pelo mundo, este baterá à minha porta pedindo-me contas."
  • "Sabemos muito mais do que julgamos, podemos muito mais do que imaginamos."
  • "Só o amor nos permite conhecermo-nos."
  • "Sente-se uma insatisfação, sobretudo dos jovens, perante um mundo que já não oferece nada, só vende!"
  • "A única revolução realmente digna de tal nome seria a revolução da paz, aquela que transformaria o homem treinado para a guerra em homem educado para a paz porque pela paz haveria sido educado. Essa, sim, seria a grande revolução mental, e portanto cultural, da Humanidade. Esse seria, finalmente, o tão falado homem novo."
  • "Nem a arte nem a literatura têm de nos dar lições de moral. Somos nós que temos de nos salvar, e isso só é possível com uma postura de cidadania ética, ainda que isto possa soar antigo e anacrónico."
  • "A História é tão pródiga, tão generosa, que não só nos dá excelentes lições sobre a actualidade de certos acontecidos outrora como também nos lega, para governo nosso, umas quantas palavras, umas quantas frases que, por esta ou aquela razão, viriam a ganhar raízes na memória dos povos."

Deixamos também a ligação a partir da qual se pode descarregar a Blimunda 13, revista da Fundação Saramago. 


13 de junho de 2013

Fernando António Pessoa

Evocamos hoje Fernando Pessoa, cujo nascimento ocorreu a 13 de Junho, dia de Santo António  e por isso Fernando António. Ao poeta desejamos longa, feliz fortuna

E aconselhamos este excelente documentário em que intervêm estudiosos, investigadores e apaixonados da obra pessoana, mas também familiares, como a sobrinha que evoca um tio brincalhão e alegre que nos custa imaginar como o poeta  de "A minha vida é um barco abandonado" ou de "Aniversário". 

O documentário desmistifica mitos e ideias feitas cujo crescimento e divulgação a internet veio infelizmente exponenciar;  e acrescenta informações deveras interessantes e menos conhecidas, por exemplo acerca da criação dos heterónimos e de algumas circunstâncias da vida  de Pessoa. Vale a pena ver:


10 de junho de 2013

Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades




 

Verdes são os campos
de cor de limão: 
assim são os olhos 
do meu coração.

Campo, que te estendes 
com verdura bela; 
ovelhas, que nela 
vosso pasto tendes, 
de ervas vos mantendes 
que traz o Verão, 
e eu das lembranças 
do meu coração.

Gados que pasceis 
com contentamento, 
vosso mantimento 
não no entendereis; 
isso que comeis 
não são ervas, não: 
são graças dos olhos 
do meu coração.

 Luís de Camões


5 de junho de 2013

Os sofrimentos do jovem Werther

Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, obra inaugural do romantismo alemão, constitui um dos marcos da literatura europeia e integra o programa de Clássicos da Literatura, do 12º Ano. É uma das primeiras obras do autor, e apresenta um acentuado teor autobiográfico. 

Ao tempo da sua publicação, foi entusiasticamente acolhido pelos jovens leitores, sobre os quais exerceu uma influência profunda. Mas não só os jovens se renderam ao fascínio do romance. Napoleão Bonaparte, diz-se, não viajava em campanha, nem por nenhuma outra razão, sem levar o seu exemplar de Werther.

 
E hoje? Será que o livro pode ainda comover-nos desta forma? Como reagiremos hoje a este romance que mergulha profundamente nos anseios e nas angústias de um jovem, pouco mais que um adolescente, a quem o temperamento romântico, a sensibilidade à flor da pele e a paixão amorosa frustrada levam ao suicídio? 

O livro, em pdf, pode descarregar-se aqui. Deixamos a recomendação da sua leitura, agora que as férias se aproximam e convidam à Viagem - porque não viajar então até ao tempo e ao imaginário do jovem Werther? 

Ainda como sugestão, o filme Young Goethe in Love, ou simplesmente Goethe!,  realizado por Philipp Stölzl, em 2010. O filme narra a vida de Johann Wolfgang von Goethe, o qual, depois de um fundo desgosto amoroso, escreve Os Sofrimentos do Jovem Werther, a obra que o tornaria famoso como escritor. 



3 de junho de 2013

Pensamentos refrescantes

Rooms by the sea (1950), pintura de Edward Hopper
E é à beira-mar,
Que nos vêm todos os pensamentos:
A nossa infância,
Os nossos momentos,
Os erros cometidos
E as lições de vida aprendidas.
Ninguém sabe o que nos vai no pensamento.
Apenas nós nos conhecemos a nós próprios.
Ninguém mais sabe como somos realmente:
O que pensamos;
O que sentimos;
As nossas emoções…
Nunca ninguém nos conhecerá completamente,
Nem os mais próximos,
Porque há coisas que guardamos para dentro,
Que apenas confiamos a nós.
Sempre foi, e sempre será.
Porque, por mais que as pessoas sejam diferentes,
Os seus pensamentos serão idênticos…
O nosso coração é como um poço fundo e escuro,
Mas, por outro lado, um campo florido e luminoso.
Todos temos momentos bons e maus.
Mas os mais marcantes
ficarão sempre no nosso coração.
Ficarão apenas para nós, coisas que nunca partilharemos,
Porque apenas nós nos conhecemos e ninguém 
mais.

                                                                      Patrícia Martins, 8ºA

30 de maio de 2013

Poesia trovadoresca na internet


BASE DE DADOS que disponibiliza a totalidade das cantigas trovadorescas galego-portuguesas incluídas nos cancioneiros, bem como algumas iluminuras e a música das composições poéticas - quer a medieval, quer as versões contemporâneas (pautas e alguns ficheiros áudio). 

Compreende ainda informação sobre todos os trovadores e sobre as personagens e os lugares referidos nas cantigas. Também o pequeno tratado de poética trovadoresca que abre o Cancioneiro da Biblioteca Nacional, chamado "Arte de Trovar", foi incluído.

A base de dados é resultante do projeto Littera, sediado no Instituto de Estudos Medievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Um precioso contributo para a preservação e divulgação do património literário português.

28 de maio de 2013

Um documentário acerca do rio Mondego - o seu curso, as suas margens, a fauna, a flora... Vinte e cinco minutos de encantamento num filme de Daniel Pinheiro, projecto final de mestrado em "Wildlife Documentary", pela universidade de Salford, Reino Unido.



23 de maio de 2013

Azar na sorte

Klimt, O beijo

Há quem possua cobre
Em vez de prata e ouro,
Enquanto acham terror
Eu encontro um tesouro

Sou rico, sendo pobre
Triste por feliz ter
Encontrado no amor
Grande sorte e prazer

Sentimento mais nobre
Jamais irei viver
Porém, sinto uma dor
Bem dura de roer

Oh, criatura tonta!
Não descubro a razão
Por que dou tal valor
Aos do meu coração

O mal que a mim remonta
Deriva do alheio
A sua pouca cor
Minha alma atinge em cheio

Carlos Martins, 10º C (poema e seleção de imagem)

19 de maio de 2013

Mágoas

fotografia de Dimitar Lazarov
Afogo as mágoas
Agora transformadas em raiva
Sinto a dor de quem foi deixada,
Por uma amiga abandonada.

Sinto o ódio invadir-me
Sinto que fui esmagada
Por um passarinho
Aparentemente fraquinho.

Só sei o que sinto
O que passou já não encaixa neste puzzle
Que é a vida que pinto.

Quando penso bem lá no fundo
Sei que não fui deixada
E percebo que a morte lhe foi doada.

A minha melhor amiga deixou-me 
Para poder apreender 
E então perceber
Que o tempo é indefinido

Agora percebo que a minha vida está inacabada
E que cada acontecimento 
Seja ele mau ou bom, é perfeito
Pois com ele completamos esta caminhada.

Beatriz Colaço, 7º A

16 de maio de 2013

Põe a tua máscara

Se te sentires mal, sorri.
Engana toda a gente.
Finge que estás feliz.
Finge que nada te deita abaixo…
Finge que és mais forte que uma pedra.
Finge que não choras todas as noites antes de dormires.
Porque é assim que todos nós fazemos.

Quando saíres à rua,
Deixa os problemas em casa.
Engana a sociedade, 
Deixa-os pensar que és feliz,
Deixa-os pensar que não tens problemas…
E, quando voltares,
E os teus problemas regressarem,
Chora,
Até a tua cara sangrar,
Até ficares desfigurado.
No dia seguinte, 
Põe a tua máscara 
E, mais uma vez, finge que és feliz.

 Lícia, 8º A

13 de maio de 2013

"Ligações Perigosas" - um olhar sobre a aristocracia francesa do séc. XVIII


No filme “Ligações Perigosas” - realizado por Stephen Frearsem em 1988 e inspirado no célebre romance epistolar de Choderlos de Laclos - é possível observar um pouco da sociedade francesa do século XVIII. Verificamos que se trata de uma sociedade dividida em classes sociais e que os membros das classes poderosas instrumentalizam sem piedade os das classes baixas e os da sua própria classe.
John Malkovitch e Glen Close, nos papéis, respectivamente, de Valmont e Merteuil
Quando os protagonistas do filme, a Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont, usam outras personagens, mais ingénuas, como simples marionetas, mostram uma enorme falta de sentimentos e de preocupação para com os outros. De facto, estas personagens manipulam toda a gente em seu redor e não olham a meios para atingir os fins mais triviais. Nenhum deles trabalha ou contribui seja de que forma for para a sociedade. Dedicam-se, apenas, a perseguir os seus objetivos egoístas, buscando o prazer e um maior prestígio aos olhos dos seus pares. Estas duas personagens são estereótipos da aristocracia francesa daquele século que não tardaria a desagregar-se com o eclodir da Revolução Francesa.


A Marquesa de Merteuil denuncia também o papel subalterno das mulheres. É por ter clara consciência desse papel menor que ela decide tornar-se mestre na arte da manipulação e da sedução, pois sabe que só assim pode ter algum papel na sociedade.


Em suma, “Ligações Perigosas”  é um bom filme para nos fazer compreender a decadente sociedade francesa do final do Ancien Régime.

Ricardo Silva, aluno de Clássicos da Literatura do 12º F

8 de maio de 2013

Complementos e modificadores

Acerca de complementos e modificadores - e outras funções sintáticas - uma página que pode dar uma boa ajuda:

Consultório de gramática