14 de março de 2013

Sou apenas igual a mim


fotografia de Jorge Guerra (Veneza, 1965)
A minha maior recordação é aquela de que não me consigo lembrar.
A maior perdição, aquela pela qual nunca me irei perder.
Gosto da vida assim sem a poder controlar,
Sem saber se vivo ou se estou prestes a morrer.

Nos momentos em que todos choram sou sempre o único a rir.
O caminho que ninguém escolhe, é por esse que eu quero ir.
Só com os olhos fechados é que consigo ver,
(Que) desdenho de tudo o que tenho e o que não tenho queria ter.

Onde todos veem o bem não vejo mais do que o mal.
Aquilo que não tenho é o que mais temo perder.
E descrevem-me assim como sendo banal,
Apenas o meu espírito se compara ao meu ser!

Não há contos de fada nem pozinhos de perlimpimpim.
O mal existe no mundo e eu gosto dele assim.
Pois este teve um mau começo e terá um triste fim,
Sou diferente de todos, mas contudo igual a mim!

                                                               Gabriel Branco, 8ºA   

13 de março de 2013

Novas Cartas Portuguesas #2


Novas Cartas Portuguesas é uma obra escrita conjuntamente pelas escritoras Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. Publicada em 1972, inspira-se nas famosas Lettres Portugaises, uma obra clássica do século XVII, composta por cinco cartas em francês, supostamente escritas por uma freira portuguesa, Mariana Alcoforado, no Convento da Conceição, em Beja, após ter sido seduzida e abandonada pelo amante, o cavaleiro francês Noel Bouton (Chevalier de Chamilly).

NCP constitui um marco crucial na evolução do pensamento feminista na literatura portuguesa, revelando, através de uma escrita ousada e por vezes agressiva, a existência de situações discriminatórias agudas em Portugal, relacionadas com a repressão ditatorial, o poder do patriarcado católico e a condição da mulher, sobretudo no que se referia ao casamento, à maternidade e à sexualidade feminina. 

Quando o livro foi publicado, causou grande escândalo, por ter sido considerado “imoral” e “pornográfico”, uma vez que as autoras abordavam temas considerados tabu, como o desejo físico e o fingimento do prazer feminino enquanto forma de alimentar as ilusões masculinas. Para além de outras críticas à sociedade portuguesa de então. 

A primeira edição de NCP foi recolhida e destruída pela Pide, e as autoras, acusadas de atentado à moral pública, foram interrogadas na polícia política e enxovalhadas em público. Mas a sua obra ficou conhecida nos dois lados do Atlântico, bem como as autoras (desde logo apelidadas “as três Marias”) que se tornaram alvo da atenção da imprensa internacional, do New York Times ao Nouvel Observateur. Simone de Beauvoir, Stephen Spender, Marguerite Duras e Doris Lessing foram algumas das personalidades que deram o seu apoio às autoras e que protestaram com ênfase contra o seu julgamento. Mas só após o 25 de abril é que o processo foi suspenso. 

O livro é composto por vários fragmentos, o que expressa a própria conceção da mulher portuguesa, desgarrada na sua essência, mas transmite uma só mensagem: a mulher também tem voz.  E apesar de ter sido publicado em 1972, o livro denuncia situações que, ainda hoje, são uma realidade no nosso país: é o caso da violência doméstica. Receio que este tipo de violência se verifique na nossa sociedade ainda por muito tempo, devido à mentalidade machista que continua impregnada na nossa cultura. De facto, a mulher continua a ser vista por muitas pessoas como propriedade do homem.

Enquanto seres humanos e mulheres, devemos continuar a luta das “Três Marias”, no desmantelamento das mentalidades retrógradas e machistas que continuam a proliferar, não só em Portugal, como um pouco por todo o mundo. Está nas mãos das gerações vindouras evitar que os direitos que as mulheres ocidentais conquistaram tão duramente se deteriorem, e batalhar para que todas as mulheres, nos quatro cantos do mundo, possam ser vistas como seres humanos, dotadas de inteligência e de coragem, mas também de fragilidades, tal como os homens. 

Indira Leão, aluna de Clássicos da Literatura do 12º F

12 de março de 2013

Semana Cultural na escola

A última semana do 2º período é dedicada, na nossa escola, a mostras e actividades de índole cultural, dinamizadas pelas turmas, como noticia aqui o jornal Alcoa. 

As artes plásticas estão em destaque: veja-se o vídeo em que os nossos artistas e as suas professoras montam a grande exposição das artes, aberta à comunidade:


11 de março de 2013

O piano


Pintura de Auguste Renoir (1892)
O piano é um instrumento,
E é também um amigo,
Que, ao contrário dos outros,
Nunca se zanga contigo.

Tem um som tão majestoso,
Tem um som que é tão belo;
Tem um som que é tão doce,
Mais doce até que um caramelo!

E é com essa voz tão bela,
Dos mais graves aos mais agudos,
Que encanta toda a gente,
Até mesmo os mais miúdos.

Esteja triste, chateada,
Feliz, ou mal-humorada,
Vou conversar com o meu amigo
E fico logo mais animada.

Se escorregar ou tropeçar
E cair de nariz no chão,
Levanto-me rapidamente,
Para poder terminar a canção.

Com ele aprendi muita coisa,
Por exemplo, a não desistir,
Porque, se formos persistentes,
Vamos ter razões p’ra sorrir!

Poder tocar piano
É uma bênção para mim,
E espero saber fazê-lo,
Até a minha vida chegar ao fim!

                                      Laura Costa, 8.º A


10 de março de 2013

Cleonice ou a paixão pelas palavras

Cleonice Berardinelli é a maior especialista do Brasil em literatura portuguesa e uma das grandes estudiosas, em todo o mundo, da obra de Fernando Pessoa. Professora catedrática, tem 96 anos e continua intelectualmente activa. 

Desde 2011, vem organizando uma colecção editada pela Casa da Palavra que reune parte da sua obra crítica acerca de literatura portuguesa, bem como antologias de poemas portugueses. No ano passado, foram editados “Gil Vicente: autos” e “Fernando Pessoa: antologia poética". E em breve sairá um volume sobre poetas portugueses dos séculos XVI a XX.

Cleonice Berardinelli estará presente na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o maior certame literário do Brasil, e talvez da lusofonia, onde dinamizará, acompanhada por Maria Bethânia, um painel acerca de Fernando Pessoa.

O Globo dedica-lhe este artigocuja leitura sugerimos.

8 de março de 2013

Novas Cartas Portuguesas



Escritas por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, e publicadas em 1972, Novas Cartas Portuguesas são um esplêndido exemplo da luta pelos direitos das mulheres numa sociedade extremamente opressiva e conservadora, na qual o papel da mulher se limitava à lida doméstica e ao cuidado do marido e dos filhos. 

Maltratadas, enclausuradas, casadas à força, enganadas, exploradas e, apesar de tudo, extremamente pacientes” (Maria Graciete Besse), foram estas as mulheres que inspiraram as autoras a lutar pela mudança dos códigos morais e das mentalidades, a lutar contra o conformismo instalado em Portugal


Lutar, ser um pouco mais, ou mesmo sonhar, não era então permitido às mulheres, mas estas três uniram-se e desta união surgiu uma obra única que os movimentos feministas, sobretudo em França e nos Estados Unidos, acolheram com grande entusiasmo. Mas, no Portugal da ditadura, as "três Marias", como ficaram conhecidas, foram acusadas de “pornografia e ultraje à moral pública”, e viram a sua obra apreendida pela censura e retirada do mercado. O que não impediu a sua leitura e reconhecimento.

Este livro é um grito de liberdade, de frontalidade e de extrema coragem, pois nele são abordados temas tabu, desde os abusos sexuais, ao quotidiano da mulher portuguesa. “Que de homens precisamos, mas não destes”, escrevem as autoras. De facto, o comportamento masculino é duramente criticado, embora seja apoiado pela sociedade, e o homem é denunciado como o machista que maltrata, abusa e detém uma superioridade gigantesca sobre a mulher, a qual lhe deve submissão. 

As Novas Cartas são assim uma confissão de “perplexidade sobre o mundo” e o testemunho de uma luta constante que só será vencida com persistência e amor “nunca cansado”.  Toda a obra é uma prova de resistência, de coragem e de bravura, onde a verdade nunca é encoberta. 

Na última carta, a ponto de concluir esta obra a três mãos, dirá a voz comum das três mulheres: “Continuamos sós, mas menos desamparadas”.

Carolina Quitério, aluna de Clássicos da Literatura do 12º E

6 de março de 2013

Olho para as estrelas



Olho para as estrelas,
Estão a brilhar. 
De seguida, olho para mim
Estarei a chorar?

Tudo o que sonhei,
Tudo o que pensei,
Tudo o que passei, 
Isso só eu sei.

Vejo-me naquele espelho,
Quem será aquela?
Serei mesmo eu,
Uma pessoa não tão bela?

Escrevo, penso, leio
Tudo o que quero.
Não posso ter receio,
Isto é tudo o que espero.

Olho à minha volta,
Tudo está cinzento.
Olho para o céu,
Até ele está poeirento.

Sozinha neste mundo,
Não tenho mais ninguém.
Tento superar-me,
Até ir mais além.

Nem os meus amigos
Me conseguem entender…
Será que alguém, um dia,
Irá perceber?

                        Catarina Lourenço, 8ºA

3 de março de 2013

A maior flor do mundo

Um filme de animação baseado num conto infantil escrito por José Saramago.


28 de fevereiro de 2013

O meu passado



Que saudades que tenho,
Daquelas doces manhãs,
Passadas a fazer desenhos,
Desenhando maçãs.

Aqueles tempos perdidos
A ver televisão,
Em vez de estar perdido
A brincar com o meu irmão.

Nos dias de primavera,
Eu corria no campo
Com a minha prima Vera,
E apanhávamos um pirilampo.


 Naqueles dias de verão,
Quando ia à praia
Com meus pais e meu irmão,
Via uma linda catraia.

Aqueles dias de outono
Com o tempo ainda quente,
Eu, ainda com sono,
E caía-me um dente.

Nos dias de inverno,
Com o Natal a chegar,
A minha vida era um inferno,
Porque era incessante o nevar.


André Paulino, 8º A

27 de fevereiro de 2013

Ruy Belo

Hoje faria 80 anos o poeta Ruy Belo, que nasceu aqui perto, no concelho de Rio Maior. Apesar de ter morrido precocemente, deixou-nos uma obra vasta, com destaque para a poesia, a tradução e o ensaio. Nas páginas do Citador e das Tormentas podem ler-se poemas seus. 

Ruy Belo é um dos poetas maiores da 2ª metade do século XX português. Para o celebrarmos, publicamos um dos seus poemas, "Tu estás aqui", dito por Luís Miguel Cintra.


26 de fevereiro de 2013

De tanto correr



pintura de Marc Chagall


De tanto correr… não parei,
De tanto chorar…  não sorri…
As lágrimas limpei e o orgulho espelhei!
De tanto viver… não lembrei,
De tanto encenar… não sonhei…
Não houve tempo para respirar 
E muito menos para gritar.
Apenas estou aqui, leda e amante,
Firme, mas hesitante.


                                  Raquel Rocha, 10º E 




25 de fevereiro de 2013

Tu

                          fotografia de James Pitts
Estou sentada à janela,
À janela do meu quarto.
Presa como uma princesa
Esperando o príncipe encantado.

Na rua, olho os casais apaixonados
Trocando carícias de amor,
Enquanto eu, aqui sozinha,
Vejo fotos tuas e o teu grande esplendor!

Tu não me conheces,
Não sabes nada sobre mim,
Nem fazes ideia de que eu existo.

Sonho contigo todos os dias,
Que te conheci pessoalmente.
O meu coração fica cheio de alegrias
Sabendo que um dia
Irei ver o teu sorriso à minha frente!

Sei que tentas fazer os possíveis
Para conheceres toda a gente.
Dizes frases que me confortam
E que me fazem ganhar
Mais esperança para seguir em frente.

Mas isso não chega,
Não me faz perder o desejo de te conhecer.
Terei de abraçar-te
E dizer-te
Que és a pessoa que,
Lá no fundo,
Toca no meu coração,
Como uma borboleta
Beija uma flor
Numa tarde de verão!

                                                     Madalena Marques Valentim, 8ºA

24 de fevereiro de 2013

Livros gratuitos online

Graças a uma iniciativa da rede ibero americana de colaboração universitária, todos os dias poderá ser descarregada gratuitamente uma obra literária - em formato PDF - na página da Universia Brasil.  
Os arquivos incluem publicações nacionais e internacionais. O primeiro título disponibilizado foi O Feiticeiro de Oz. Para os próximos dias, estão listados clássicos como O Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas,  O Anticristo, de Nietzsche, e Anna Karenina, de Tolstoi.

Para baixar os livros basta aceder à página do Universia. 



21 de fevereiro de 2013

Uma entrevista ao poeta Dante Alighieri



O meu entrevistado é o célebre escritor, poeta e político italiano, Dante Alighieri. Dante nasceu em Florença, em 1265, numa família da baixa nobreza. É autor da obra Divina Comédia, que influenciou indelevelmente a cultura ocidental, continuando a ser, até hoje, o clássico europeu em língua vernácula que serviu de arquétipo a todos os que se seguiram. Pouco se sabe sobre a vida de Dante, mas podemos encontrar alguma informação nas suas obras, por exemplo na Vida Nova, onde o poeta exprime o seu amor platónico por Beatriz Portinari, que encontrara pela primeira vez quando tinham ambos nove anos e que só voltaria a ver nove anos depois. Apesar de se ter casado, obrigado pelos pais, com Gemma Donati, ele nunca esqueceu Beatriz. Exilado por motivos políticos, Dante morreu em Ravena, onde foi sepultado com honras. 


I: Quero, antes de mais, agradecer a sua ilustre presença e a sua disponibilidade para dar esta entrevista.

Dante: Eu é que agradeço o convite.


I: Começo por lhe perguntar como se sente com o triunfo da sua obra, Divina Comédia, que influenciou tão profundamente toda a cultura ocidental.


Dante Quando escrevi a Comédia, a que posteriormente passaram a chamar Divina, nunca imaginei que pudesse revolucionar a literatura ocidental. Nesta obra relatei uma viagem imaginária, através do Inferno, do Purgatório e do Paraíso, criando, assim, uma alegoria do percurso do homem em busca de si mesmo. Guiado primeiro pelo poeta romano Virgílio, e depois por Beatriz, visito os círculos infernais e desço até ao centro da Terra, onde reside Lúcifer; depois subo a montanha do Purgatório, até ao Paraíso. 


I: Já que referiu o nome de Beatriz, fale-nos um pouco sobre ela. Sabemos que esteve, durante toda a vida, apaixonado por ela. Ela conhecia-o e também o amava? Chegaram a falar-se ou a corresponder-se?


Dante: (comovido) Custa-me falar sobre ela… Era a minha musa inspiradora, a minha principessa… embora nem sequer me conhecesse enquanto éramos vivos.

I: Desculpe, ela não sabia da sua existência? Então como é que se apaixonou irremediavelmente por ela?


Dante: Cruzámo-nos uma vez e foi, para mim, amor à primeira vista. Platónico, amor do espírito e aspirando à perfeição. Nunca falei com ela nem lhe confessei o que sentia. Só no Paraíso é que os seus sentimentos por mim mudaram… Scusa, agora basta! Não quero falar mais desse assunto.

I: (dececionada) Pois muito bem. Fale-me então de Virgílio. Porque é que o escolheu como guia, para o acompanhar durante a sua viagem ao Inferno, ajudando-o também a defender-se dos três animais ferozes que lhe impediam o passo, logo no início da viagem?
Ilustração de William Blake
Dante:  Não foi por acaso que escolhi o eloquente Virgílio. Para além de ter sido romano e de partilharmos, portanto, o sangue italiano, e de eu ser um tenaz nacionalista, (porque se não o fosse, não tinha escrito a Comédia em italiano, numa altura em que os livros importantes eram escritos em latim), considero-o o meu maestro, porque me influenciou ao longo de toda a vida, sendo também ele uma fonte de inspiração para a minha obra. Tal como digo no canto I da Comédia:

 “Tu és o meu mestre e o meu autor:
 Somente de ti é que aprendi
O belo estilo que me tem honrado”.


I: De facto, é um louvor muito belo. E porque é que ao criar os círculos infernais, que representam, cada um, uma categoria de pecados mortais mais grave que o anterior, é mais benevolente para com os amores proibidos e adúlteros? Faço esta pergunta porque na época em que viveu considerava-se tudo quanto se relacionava com o corpo e a sexualidade como pecaminoso e gravíssimo. 


Ilustração de William Blake
Dante:  (impaciente) Como sabe, os círculos vão sendo piores quanto mais próximos das entranhas da Terra. Considero que a traição à pátria é o pior dos pecados, portanto coloquei esses pecadores no mais profundo e terrível dos círculos infernais, o nono. No que diz respeito aos sensuais, que incluem os amores proibidos, sou realmente mais benevolente, porque me comovem. São pecados da juventude, da imprevidência, e não, ao contrário dos outros que referi, pecados da premeditação e da fraude. (pensativo) Na minha obra, no Canto V, durante a passagem pelo segundo círculo, o dos sensuais, encontrei Paolo e Francesca, dois amantes assassinados pelo marido de Francesca. Emocionou-me a história daquelas pobres almas presas no turbilhão, porque, além de terem vivido na mesma época em que eu vivi, acho que o amor verdadeiro não devia ser proibido, ou pelo menos punido daquela forma.

I:  Não querendo ser indiscreta, acho que o seu amor platónico e grandioso por Beatriz o levou a ser benevolente para com os adúlteros, como Paolo e Francesca, Ginevra e Lancelot, e outros que ali coloca.


Dante:  (surpreendido) Talvez. Mas, como referi anteriormente, não quero falar mais sobre a minha amada Beatriz, ela não me deu autorização para isso, e está à minha espera. Terei de interromper esta entrevista…
Ilustração de Salvador Dali


I:Não se vá já embora, ainda tenho tantas perguntas para fazer! Uma delas é saber aonde estão as vossas almas, se é no Inferno, se no Paraíso.


Dante: (surpreendido) Porque quem nos toma?! Claro que estamos no Paraíso, só não estamos ao lado de Deus, porque não somos anjos. Contudo, estamos no 2º céu do Paraíso, destinado às almas que praticaram o bem, mas que buscaram também as glórias e as honras mundanas. E agora tenho mesmo de partir.

I:(inquieta) Espere, deixe-me por favor, fazer uma última pergunta: qual é a sua passagem favorita da Divina Comédia?


Dante:  Va bene, respondo a essa última pergunta. Gosto especialmente da parte do Inferno em que tenho a preciosa ajuda de Virgílio, a quem devo a vida, porque me salva de três feras medonhas e me dá importantes conselhos. E gosto particularmente da abertura do Canto I, esse terceto tantas vezes citado pelos vindouros:

 “Nel mezzo del cammin di nostra vita
 mi retrovai per una selva oscura, 
ché la diritta via era smarita” 


I: Obrigada por ter respondido a todas as minhas perguntas, tinha muitas mais para lhe fazer mas, infelizmente, o tempo é mais curto para as pessoas mundanas do que para as almas. Orgulho-me muito de ter falado consigo. 


Dante:  E eu gostei de me ter dirigido a uma jovem do século XXI. Quem poderia tê-lo imaginado, nos séculos tão distantes em que vivi? Mas agora reúno-me à minha bela Beatriz, para toda a eternidade. Addio. 


                                                                                                                                Indira Leão, aluna de Clássicos da Literatura do 12º Ano F