13 de dezembro de 2012

Dois poemas

 da Inês Cruz - 9º A    



       

1
SUSPIRO

Suspiro frio que me sufoca
Inalado com egoísmo e revolta
Engolido a seco sem ternura.
Mágoa abandonada pelo percurso
Deixada num suspiro presente.
Abandonei a alma quente
Que largava simples brisas.
O meu corpo rapidamente se encheu de suspiros frios, inalcançáveis.
Fui crucificada por respirações sofridas,
Lamentações irónicas,
Desprezo tranquilo,
Uma destruição livre.
Ser frágil é o absurdo da dor perdida
Que de verdade não foi deixada mas sim magoada.

                 
2
O MAR

Larguei-te um dia ao mar
Lançando-me também a mim ao ar
Agora perdida sem lamentar.

Limitei-me a abandonar o sonho que alguma vez tive
A mágoa que ocupava o meu lugar
A ilusão que se lamentou.

Dolorida, revoltei-me contra o tempo
Que esperei para tranquilizar
E assim, caí ao mar.





29 de novembro de 2012

Jogas?

Um par de boxers, duas camisolas, uma lanterna, 20 euros dos avós, um livro demasiado grande para ler antes dos 27 anos, um baralho de cartas de coleção, um relógio e uma lupa antiga. Foi o que ele recebeu ontem, quando fez 15 anos. Boa lista, comparando com as minhas, em que 2/3 dos presentes não têm a ínfima utilidade.


Fomos para o sótão jogar qualquer coisa. Foi a forma que ele arranjou de estrear um baralho que, supostamente, excecionalmente, seria aberto ou usado, tendo em conta o valor.

- Eish, esquece, está ganho! Nem te passa o que vem agora… - gabava-se ele, preparando-se para aquela que seria a sua jogada triunfal.

Mal imaginava ele que era eu quem tinha o Ás de copas. O Bruno de sempre: precipitado, vaidoso, pouco modesto. Sorri-lhe, apreciando a sua espalhafatosa e cómica postura descuidada. Lá estava ele de braços levantados e olhos felizes, disposto a terminar o jogo.

- Bruno - chamei calmamente, cortando o seu momento glorioso - repara só - disse, num tom divertido de sarcasmo.

Fixando-o nos olhos, pousei lentamente o meu Ás sobre a mesa empoeirada, esboçando um sorriso e esperando a reação dele.

- Eu não acredito nisto! - gritou ele, num misto de assombro e surpresa - Eu não acredito nisto! É sempre a mesma coisa!

E, num gesto infantil de gozo, lançou o baralho ao chão, rindo.

Carolina Couto, 9º B

27 de novembro de 2012

Metas curriculares

Segundo pode ler-se na Introdução ao documento que define as Metas Curriculares para o Ensino Básico, elas assumem este ano um caráter indicativo, tornando-se obrigatório o seu seguimento, em articulação com o processo de avaliação, em 2013/2014. Importa pois refletir acerca deste referencial que norteará o nosso trabalho a partir do próximo ano letivo. 
 

Segue-se uma opinião abalizada, publicada na sua página do Facebook pelo Professor Carlos Ceia, (da FCSH da Universidade Nova de Lisboa), o qual desde há muito acompanha as questões da formação inicial de professores.
«Depois de ter criticado severamente o anterior modelo de metas de aprendizagem, onde o menosprezo institucionalizado pelo conhecimento científico em favor de uma falsa pragmática era a nota dominante, tenho agora que felicitar a equipa da Professora Helena Buescu por ter sido capaz de criar um documento legível e proveitoso para a organização do ensino. Onde tínhamos o elogio do treino de competências relacionadas com uma textualidade meramente linguística, temos agora uma educação dirigida ao conhecimento do texto enquanto estrutura dinâmica e criativa de sentidos que tanto podemos encontrar nas suas modalidades literárias como nas não literárias.
As diversas equipas das metas de aprendizagem trabalharam seguindo as suas convicções idiossincráticas sobre o que deve ser ensinado e aprendido e não houve uma articulação entre os diversos saberes nem sequer os que estão mais próximos uns dos outros. A formação literária estava dissimulada no ensino de línguas estrangeiras em todo o Ensino Básico. Não havia um pensamento transversal, não havia sequer uma estratégia geral de promoção do ensino da literatura nos diversos níveis de ensino. A formação do gosto literário e/ou a formação de novos leitores continuava à mercê da imaginação romântica de cada professor e da sua sensibilidade para integrar o ensino avulso da literatura nos rígidos programas de ensino do novo pragmatismo da língua materna.
Mantenho a reserva de opinião sobre a questão complexa de termos metas por anos escolares ou por ciclos. No sistema inglês, as metas (ou attainment targets) não se organizam por anos de escolaridade, porque, por exemplo, é possível um estudante do 6º ano ler e escrever melhor do que um do 9º ano. No sistema português comete-se, desde há muito, este erro estratégico de confundir metas de aprendizagem/curriculares (para ciclos de aprendizagem) com organização curricular anual (para a gestão da escola, da vida escolar e da acção dos professores).
Não era só a palavra literatura que estava ausente das metas de aprendizagem. Também faltava a palavra-chave autoconhecimento. Estarão erradas todas as metas de aprendizagem/curriculares da leitura literária que nos afastem do conhecimento de nós mesmos. Essa meta é a mais difícil de ensinar, mas ao mesmo tempo a mais profícua. Ninguém se forma como leitor se não tiver como objectivo maior nessa função o autoconhecimento, que é aquilo que nos individualiza verdadeiramente e aquilo que define a nossa identidade. Aprender a ler e a escrever bem através da literatura é um caminho único para a formação pessoal que não se faz apenas por via de um conjunto de competências pré-determinadas que importa treinar. O fragmento 229 do Livro do Desassossego de Bernardo Soares contém uma lição importante sobre o significado da leitura e o modo como a podemos executar: “Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo.” O caminho apontado pelas anteriores metas de aprendizagem, para a Língua Portuguesa, ilustrava a metodologia inversa da complexidade na erudição e esse seria sempre o pior modo de ler bem, nunca ser profundo e, assim, nunca chegar a conhecer bem quem somos.
O novo documento promove uma "educação literária", não tem medo de a assumir e isso é já por si uma revolução que importa aplaudir.»


26 de novembro de 2012

Acerca da Divina Comédia




Um ponto de vista
Dante Alighieri, pintura de Giotto
A “Divina Comédia” é uma obra poética do século XIV que narra uma viagem aventurosa imaginada por Dante, autor e personagem principal da “Comédia” que, posteriormente, recebeu o título de “Divina”. A obra divide-se em três partes (Inferno, Purgatório e Paraíso) e, através dela, Dante dá-nos a conhecer alguns aspetos da sua mundivisão. 
Dante vê o Inferno como um abismo circular que se situa debaixo de Jerusalém e se estreita de cima para baixo, penetrando até ao centro da Terra. A maneira como o poeta divide os nove círculos do Inferno e distribui os vários pecadores é, provavelmente, o aspeto que mais me intriga. Na minha opinião, “criar” um Inferno para castigar eternamente todas as almas pecadoras não faz sentido, pois penso que o maior castigo que podemos ter é perder o direito à vida.
Contudo, apesar de não concordar totalmente com a visão que Dante tem do mundo, penso que o Inferno presente na “Divina Comédia” nos faz refletir sobre a vida e perceber que todos os nossos atos têm consequências.

Ana Portugal, aluna de Clássicos da Literatura, 12º F

19 de novembro de 2012

Todos os inícios são delicados

E porque não abrir com algumas sugestões de leitura, uma pequena série de títulos iniciáticos? Aqui vai o primeiro, sob a égide de Joseph Joubert:

"O maior defeito dos livros novos é impedir a leitura dos antigos."

Não que os livros novos desmereçam a nossa atenção, pelo contrário, mas quão inestimáveis são tantos dos que atrás deles se vão silenciando e ocultando. Aqui fica pois a sugestão de um conto escrito nos anos 60 do século passado - um conto cheio de alegria e de juvenil descoberta da vida.


CONSTANTINO, GUARDADOR DE VACAS E DE SONHOS

Tem doze anos, mas não deitou muito corpo para a idade. Ainda está a tempo. Um homem cresce até ao fim da vida, se não em altura, pelo menos em obras e ambições. E nisso promete.

Por voto do padrinho e assentimento dos pais, recebeu no registo o nome de Constantino. É um nome bonito, sim senhor. Na aldeia não há outro igual, e isso é bom, pensou a mãe; escusa uma pessoa de matar a cabeça como em certas casas em que os homens usam o mesmo nome e ninguém se entende. Na Chamboeira conheceu ela uma mulher, a Ti Pirralha, metida num inferno de portas adentro por causa de o marido, o filho e o neto se chamarem António.

Enquanto o rapaz foi pitorro, tudo correu bem. Um era o António Grande, o outro só António e o mais novo o António Pequeno, O rapaz porém, deitou muito corpo, e depressa, enquanto o avô continuou cartaxinho, cartaxinho e melindroso, pois começou a pôr-se de vidro fino quando a mulher lhe chamava Grande, vendo nisso uma artimanha dela para se vingar de certas desfeitas que lhe fazia quando bebia um copo a mais.

«Grandes são os burros», refilava então o velho, muito rezingão, com reumático nas cruzes, umas dores parvas como dentadas de lobo. Mas andou tudo raso naquele casal quando a Ti Pirralha o tratou por António Velho para chamar Novo ao neto, o que incendiou o marido, e de tal jeito que a mulher teve de se esconder três dias em casa duma vizinha.

«Velhos são os trapos!», gritava o António Pirralha chamando corja ao povo inteiro da sua aldeia – que não gostava muito dele, valha a verdade.

Foi isto mais ou menos o que a mãe do Constantino lembrou ao marido para defender o nome escolhido pelo compadre. Constantino era um nome bonito para rapaz.

                        Alves Redol, Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, Editorial Caminho, Lisboa, 20ª edição, 1990