20 de abril de 2015

Quem sou eu?


Maravilhas - pintura de Joan Miró, 1975

Encontro-me neste momento a vaguear por entre as mais sombrias ruas. Faço-o frequentemente. A minha pessoa perde-se, por ser tão frágil, tão inquieta e tão insegura de si mesma. O medo apodera-se da minha vontade de viver e rouba-me o que de mais valor tenho. Rouba-me a mim mesmo. O silêncio destrói-me interiormente, e, quando cerro os olhos, idealizo um mundo onde não posso estar.

São vários os fatores e os riscos que, dia após dia, corro. É certo que a felicidade é espontânea e momentânea, e é ainda mais certa a minha vontade de a receber agora, neste momento. A carência que eu sinto é e sempre será um dos meus pontos fracos. Ao passear nas tais sombrias ruas que sempre admirei, vejo-me perante os meus pensamentos. Os meus pensamentos que, de algum modo, são os meus piores inimigos. Acusam uma revolta e uma dor crua e destruidora. Revelam horas passadas num lugar escuro e solitário, por onde caminhei, convicto e decidido, sem mesmo saber onde tal jornada me iria levar. Pensamentos estes que são e sempre foram inexplicáveis. Sempre representaram o mais forte dos meus medos, a mais preocupante das minhas aflições, e a mais angustiante das minhas dúvidas. 

O meu inconsciente sempre soube. Lá no fundo, as ruas sombrias onde tantas vezes me perdi e a dor crua tantas vezes por mim sofrida sempre foram um refúgio que eu outrora criara. O sujeito sempre fui eu. Sempre fui eu que me roubei a mim próprio, que destruía as minhas vontades e os meus sonhos, as minhas ambições e os meus desejos. O medo era eu. O medo sempre fui eu, e provavelmente continuarei a ser. Medo de mim, de quem sou. Do que desejo e do que quero. O medo era eu, porque as ruas sombrias nunca o foram verdadeiramente. O sombrio era eu. Sempre temi a minha pessoa, pelo sofrimento que me fez passar, e pelos ideais que, inevitavelmente, dela fazem parte. Os meus medos são previsíveis, e isso sempre me assustou. A previsibilidade dos meus pensamentos sempre acusou uma fraqueza que jamais iria destruir. Na verdade, é impossível fazê-lo.

Serei eternamente um fraco, por alguma vez ter ponderado conseguir encontrar a minha pessoa no meio de todas estas ruas sombrias e solitárias, das quais nunca faria parte. Seria impossível. Porquê tentar incluir-me num mundo onde nem eu, nem os meus sonhos, nem as minhas ambições, nem nenhuma parte de mim poderia fazer parte? Seria incorreto, seria injusto para comigo mesmo. Mas é daí que surgem os medos. O meu medo sempre foi esse. Medo de enfrentar o medo. Medo de enfrentar perguntas cujas respostas me assustariam, tal como sempre temi.

A questão neste momento é bastante clara. Sei do que fugi e sei o que temi. Sei onde me perdi, e onde me voltei a encontrar. As sombras daquelas ruas acabaram por desaparecer, de alguma forma. Neste momento há homogeneidade, entre mim e o mundo onde queria estar. Os meus medos são agora sonhos, e os meus sonhos são agora realidades. Tudo o que eu sempre quis, consegui-o. Foi preciso luta. Foram precisas lágrimas, ofensas, ódios e lamentações. Foram precisas gargalhadas, sorrisos, gritos e perdões.

O fraco tornou-se forte, e o difícil tornou-se fácil. Todos aqueles passeios noturnos em ruas sombrias e solitárias desvaneceram-se. E hoje já não preciso de por lá caminhar novamente. Aqueles medos de que sempre fugi hoje são felicitações do medo que atualmente sou. Felicitações que me fazem sorrir e amedrontar o próprio medo que antes fora. O sombrio agora é claro. Lágrimas negras são agora transparentes. As viagens já não são solitárias, cruas e dolorosas. As carências que eu sentia, e que continuo a sentir, as infinitas vezes em que me perdi sem me encontrar, e as demais viagens que fiz, tornaram-se neste momento em algo grandioso e harmonioso.
Eras tu a luz que jamais quero que desapareça e que se apague. Eras tu a radical mudança que tinha de ser feita. O que seria dos meus medos e das minhas ruas sombrias se lá não tivesses aparecido? Só tenho medo de voltar a ter medo do medo que eu fora. Mas para isso tenho as tuas palavras, e tu as minhas lágrimas, e todos os meus incansáveis sorrisos espontâneos e naturais. Cerrados deixarão os meus olhos de estar, por saber que hoje te adoro, pelo que és e pelo que foste.

Hoje estou feliz, intrinsecamente feliz. Hoje os meus medos perderam-se, ou pelo menos enfraqueceram. Não sozinhos, mas graças a tudo o que de mais simples possas ter feito. Por isso hoje dou-te o que tenho, o mais sincero e o mais genuíno, o que sonho e o que ambiciono, o que temo e o que recuso. Contigo os meus sentimentos partilho, esperando apenas ser compreendido.
Perdido deixei de estar, pois os meus reflexos deixaram de ser isso mesmo. És o espelho da minha pessoa. Resta-me agradecer e, por entre as lágrimas escorridas e palavras proferidas, sorrisos roubados e gritos impedidos, digo que te Adoro.

Bernardo Mendes, 11º A

2 comentários:

Ferreira Borges disse...

Texto belíssimo. Mesmo à moda do menino que sempre conheci.
Bom trabalho!

Soledade disse...

Muito bom!